O ocorrido na estradinha Mitchell

O local era escuro. O vento passava com força de um lado ao outro arrastando os troços que encontrava pela frente. Uma tempestade se aproximava. As trovoadas duradouras amedrontavam a população de  Sulina, que escondia-se há meses após acontecimentos umbrosos. Ao lado do velho banco da estradinha Mitchell, um relógio digital marcava exatamente 20 horas. Uma andarilha, solitária e abatida, vagava do outro lado da rua à procura de um alpendre. Necessitava o quanto antes proteger-se do temporal. A puída estalagem de paredes sem emboço e teto escorchado ao centro de sua visão serviu-lhe como opção ímpar para seu descanso noturno. Ao entrar, sucessivos estrondos e gritos puderam ser ouvidos por Pierre no Engenho Velho, ao norte dali. A noite seria longa. A andarilha, que vestia trajes rasgados, era órfã, tinha quatorze anos e jamais sairia do acabado aposento após a madrugada nimbosa. Ninguém viu. Apenas sentiam a presença de algo grotesco no abandonado local ao pé da montanha.

Durante meses, os que passavam a noite pelo local, eram perseguidos por criaturas impercebíveis que aparentavam ser fantasmas. Era isso o que todos diziam, "fantasmas". Mas não apenas homens, mulheres e crianças intocáveis, além disso, bichos bizarros e criaturas desconhecidas. Os mentirosos, ouriçados, ralhavam sobre espíritos noturnos. Os destemidos e descrentes conflitavam as fofocas. Os de espiritualidade louvável, mesmo não os vendo, caracterizavam os seres perfeitamente como se os vissem, verdadeiras sombras vindas para o plano real em fuga do coexistente ínfero. As possessões na cidade eram corriqueiras e os persuadidos asseguravam os atos tétricos às almas peçonhentas extraviadas do Além. Suas existências chegaram a ser evidenciadas mas somente entre grupos de pessoas, que assimilaram algumas aparições próximas ao local com criaturas de calda enrolada espessa, casco avermelhado sobre o dorso, dentes vultosos e envergados e olhos rutilantes, às vezes, maiores que a própria cavidade bucal. Os fantasmas provocavam as mais tenebrosas sensações nos visitantes das redondezas.

Um jovem ambientalista que chegara na cidade em meados de 2001, seria sugado para o covil dos espíritos famintos após adentrar por curiosidade no velho alojamento, onde encontraria a personificação do mal. Junto a ele, três adolescentes nascidos e criados na cidade enfrentariam situações assustadoras após o contato com um espelho que não reflete imagem humana e a descoberta de um livreto com anotações conhecidas somente pelo ambientalista.

A fenda para o abismo eterno estaria finalmente aberta e suas almas negras dariam boas vindas aos olhos e corpos arrebatados em Sulina.

Acredita-se por lá que Assombrações existam desde a época a.c e podem, além de vagar, permanecerem mais perto do que se imagina. Um piscar de olhos pode trazer as mais intragáveis lembranças. Desperte agora de seu sono, escolhido dentre tantos, e conheça a rota que levará os jovens ao último recanto dos espíritos em mistérios que se alastram desde a maldita Rua Severin.

Capítulo 1
Gabriel Bergiam e o irmão do Diabo

As passagens dos irmãos Retten-Hurz pelo município de Caçador haviam finalmente chegado ao fim. Meses depois da última visita dos irmãos ao território maligno suas vidas voltaram ao cotidiano comum de Tangará. Os jovens conseguiram eliminar de suas memórias os fatos mais assombrosos vivenciados na Rua Severin naquele ano. Os dias se passaram e os comentários sobre os fantasmas de 1987 e a maldição que o município espargia em 1994 se tornaram cada vez mais escassos. Mas apesar de os guris serem extasiados pelo ambiente da aversão humana os seus desejos incomuns só desapareceram como balões no horizonte celeste após a morte de Gabriel Bergiam.

Gabriel não era amigo dos irmãos, vivia na cadeira de rodas desde os seus seis anos, período em que teve paralisia múltipla dos membros causada supostamente pela peçonha de uma cobra desconhecida. Os pais do guri o levou às pressas para o hospital do centro. Débora chorava enquanto Timóteo carregava o filho desmaiado nos braços. O estado flácido do garoto aterrorizou o pai, que tremia e suava como um porco fugindo de seu predador enquanto um dos braços do piá balançava como um barbante maleável indo e voltando em movimentos circulares. Os lábios já estavam roxos e o sangue do menino parecia ter sido sugado por inteiro durante o trajeto até o hospital. O local da ferida parecia a rodela de um tomate cortado e apodrecido há meses. Estava rubro enegrecido e já cheirava mal. Quando deixaram o filho na maca e o viram sendo levado na correria por uma equipe de quatro médicos que pareciam não estar prontos para o socorro, os pais se abraçaram em prantos. Por ventura, todo esse processo lutuoso não decorrera por mais de quinze minutos e, segundo o doutor Alexandre P. Howard, fora isso que salvara o piá.

Mas o caso não parou por aí. Após o processo de recuperação, Gabriel viveu relativamente bem por algumas semanas mas logo teve complicações no sistema nervoso. Segundo Howard, traços de uma pequena dosagem do veneno havia chegado ao sistema nervoso do menino e impedia que ele movimentasse normalmente os membros a partir de então. Eventualmente, enquanto socorria Gabriel no dia do acontecido, a equipe não observara esses vestígios da peçonha, motivo esquisito que levara o guri até a situação atual. O seu comportamento sofreu graves alterações. Gabriel se tornou um piá estático e assim permaneceu até os seus doze anos. Não falava e não mexia nenhum dos membros, limitava-se apenas a movimentar os miúdos olhos negros.

Na noite de 16 de novembro de 1994, Gabriel levantou-se de sua cadeira de rodas depois de tantos anos e andou até o quintal da casa. Os movimentos eram mecânicos e lentos. Algumas risadinhas arrepiantes foram entoadas pelo guri assim que ele chegara ao lado da bela roseira. As rosas, por sinal, murcharam em questão de minutos, tornando-se cada quais, verdadeiras plumagens negras.

O estirado cabelo loiro caia sobre o rosto e o semblante incessante de um boneco risonho se manifestava em Gabriel. O piá estava possesso. A possessão seria a pior e mais díspar metodologia já vista em qualquer outro tempo ou em qualquer outro caso sobrenatural.

***

Os pais, percebendo a ação diferente do menino, correram até o quintal.

— Filho! O que tá acontecendo, Gabriel? Estás andando? Fale comigo meu amor! — a mãe tentava se aproximar, quase aos berros e prantos, encostada na base da porta inferior da casa.
— Arh... Arhhh... — o som emitido pela garganta infantil do menino parecia sair do buraco de uma criatura mefistofélica.

A mãe arregalou os olhos. Travou os passos que dava em direção a Gabriel. Timóteo, que até então não havia se aproximado do filho, percebera o que acontecia. Deu passos desesperados com uma bíblia em mãos proferindo em gritos algum verso que fizera o menino gargalhar diabolicamente. Insistentemente, continuou, entre a gagueira momentânea ocasionada pelo pavor mas não chegou a terminar a sua oração. Repentina e monstruosamente, uma existência sobre-humana rasgou violentamente o corpo de Gabriel, saindo de seu interior e caindo na superfície entre órgãos, sangue e uma secreção anegrada no gramado do quintal. Os pais, vomitariam se tivessem tempo, mas a gigante criatura que viera ao mundo rasgando o pequeno Gabriel, multiplicou-se em segundos, gerando incontáveis miudezas em bebidas excêntricas do inferno que voaram sobre os corpos dos pais e os arrastou para dentro do soalho. O livro sagrado, encharcado pelo vermelhão da noite, foi encontrado ao lado da poça de sangue e das duas fissuras na sala da casa. O resto estava assombrosamente intacto. Os pedaços de Bergiam e os corpos de seus pais foram encontrados mutilados na casa.

Depois das notícias reveladas na mídia de Tangará, que informavam de maneiras inefáveis a morte da família durante a madrugada de 17 de novembro na Rua Manoel Carlos, Brendon se espavoriu como nunca.

— Tu sabes, não é, Érico? Tu sabes assim como eu que estas coisas não foram normais, não é? — o olhar do Retten era trêmulo.
— Bah, irmão! Eu sei. Mas, já devias estar acostumado com isso — Érico assentiu.
— Não entendo, cara. Onde isto vai parar? Por que estas coisas nunca acabam? O que realmente deve ter acontecido lá?
— Não sei irmão. Não sei mesmo! Mas não foi nada bom, disso eu tenho certeza.
— O Gabriel tinha mesmo um jeito meio satânico, mas sempre acreditei que era por causa da doença
— Brendon olhava atentamente na direção da casa de Bergiam, parecia estar vendo tudo em seu íntimo como uma visão inconsciente que lhe aparecia em frente à visão humana.
— É Brendon, acontecem coisas no mundo real que não sabemos explicar. Mas elas acontecem, tu sabes muito bem disso, e isto já é o suficiente, cara. Não fique aí parado, isto não é pra gente, não temos que nos envolver nisto — Érico deu um empurrãozinho no irmão, que andou até a calçada e montou a sua bicicleta enferrujada. Depois daquele dia, o destino traria horrendas surpresas e os dois jamais voltariam juntos na rua em que pisavam agora.

Após o ocorrido, os irmãos se calaram. Aparentemente o medo os embrulhou depois de tantas teorias terríveis sobre a carnificina da família.

Brendon terminou o colegial naquele verão de 94 e seguiu para o curso preparatório de ambientalismo. O jovem estava entusiasmado com as novas possibilidades que surgiam em sua vida. O rapaz não tinha desejos reais que os levasse a escolher uma profissão onde o principal objetivo profissional gerasse a política voltada para a qualidade de vida e a poluição do ambiente, mas foi oportunista. Havia uma garota na jogada. Angelita Cegan fora apenas uma distração nas ocorrências do retorno ao seu município de origem. O jovem guardara em suas memórias o romance com a linda guria de Caçador mas agora estava enrolado com Mônica Batter, a organizadora do projeto ambiental de Tangará. Era certo que a aproximação dele a ela, renderia um breve ou longo romance, pelo menos este era o seu pensamento.

A jovem, dotada de um belo corpo, seios redondos e fartos, boca instigante que sempre levava o brilho ocasionado pela aquosidade de sua saliva, não parecia querer se envolver com Brendon destinando-se a esse propósito. Talvez sim. Talvez ela ate quisesse algo mais — aquelas segundas intenções que as garotas com dezessete ou dezoito anos, às vezes tem —, mas isso não era prioridade.

Ela era filha de Eliza e Rafael Batter, secretários da empresa EcoGeo, organização designada para análise de incidentes físicos e mineralógicos de sedimentos e solos da cidade.

Mônica era bastante conhecida pelos moradores, uns até faziam fofocas de Brendon para a guria, tentando convencê-la de que ele era um rapazote obscuro e sem futuro. Os pais conheciam a família de Érico a bastante tempo e sabiam toda a bruma que eles carregavam. A imagem da filha ao lado de Brendon, o excêntrico e, às vezes, lunático, não agradava nem mesmo a maioria dos amigos e conhecidos dos Batter. Era intempestiva, para quase todos, a ideia de um provável namoro entre Mônica e Brendon. Talvez, por todas essas bobiças que o povo tanto excogitou, o galanteio do adolescente de Caçador não fora tão frutuoso. Mesmo com as suas investidas, apoiadas demasiadamente pelo irmão mais velho, Brendon desistira completamente da guria na ocasião em que recebera, da pior maneira possível, a rejeição. Não fora nada tão absurdo que o fizesse querer dilacerar todo o seu corpo em busca de uma dor maior do que a que sentira no dia em que recebera aquele "não", mas os fantasmas mortos em suas lembranças renasceriam, a partir de então, para sufocá-lo por noites em meio a escuridão. Talvez a depressão lhe trouxesse visitas. Como uma atração lugente que trazia horrores. Ele nunca percebera, mas sempre foi assim. Desde Caçador, desde a infância, desde Bárbara, desde as notas ruins, desde os primeiros "nãos" da adolescência. A cada abatimento um novo olhar escondido lhe fazia companhia. Nem sempre o gurizote era capaz de perceber a presença repentina que lhe cercava. Eles apareciam como se quisessem ajudar o piá. Gloriosos de seus poderes sujos e diabólicos capazes de infiltrar-lhe a alma para que a vingança causasse em Brendon, o prazer.

Ditoso de uma competência em referência ao espaço sobre-humano, agora, nas noites de inquietude, os olhos semicerrados só fingiam que nada viam, contudo, deitado na cama, ao lado do irmão, Brendon era capaz de jurar quantas vezes necessário fosse que, ao lado da porta, antigas presenças o visitavam. Diferente do que pensou, não foi apenas uma única ocorrência. Eles viam em maior frequência a cada dia, pareciam se multiplicar a cada horário e, já na terceira semana, o futuro ambientalista começou a receber prenúncios que fizeram-no amedrontar-se. Era aterrador e ficou ainda pior quando as palavras dos visitantes do Além se cumpriram na vida de Brendon. 

Autor Leonardo Otaciano
Trechos do terceiro volume da trilogia 'A Rua Severin' - Último Recanto dos Espíritos

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