O romance favoritado do ano: 'Janelas Abertas', do autor Ademilson Chaves


É impossível ler as instigantes histórias do autor Ademilson Chaves e não se incorporar em cada uma delas, sempre tão bem traçadas, escritas e narradas - quando, não por seus protagonistas, pelo próprio autor que assume o papel do narrador não participativo e é capaz de surpreender a cada novo capítulo. Anteriormente fiz a resenha de seus outros livros que valem muito a indicação também:


Em 'Janelas Abertas', (Selo Jovem), mais uma trama eficaz da coleção do autor e desenvolvida com inteligência, o leitor se depara com todas as boas possibilidades que um romance pode trazer. O jeito sedutor de Ademilson Chaves envolvendo seu amigo leitor por completo, e sua escrita frequentemente caprichada com palavras simples, precisas, e que conseguem unir sentimentos à técnica, é um ponto bem importante no êxito da obra, além, é claro, destas serem características bem fieis do autor mineiro. Logo, o leitor se enxerga afogado novamente em uma enorme nuvem de sentimentos, como uma roda-gigante, que mexe com os extremos e com as expectativas daqueles que se assentam às cadeiras à espera de uma sensação que será ímpar.

Ao ler o livro, o prazer pela leitura ganha uma crescente considerável já nos primeiros capítulos, onde é narrado, ao olhar de um primo apaixonado, a nascente de seu arrebatamento por Martha, a prima que o deixa encabulado desde a época da infância. Ambos personagens se entregam de forma integral ao enredo (ele, por não ter medo ou vergonha ao demonstrar suas convicções; ela resistindo as adversidades encontradas no caminho da fase adulta após trágicos acontecimentos). O modelo de narrativa alterada (ora reforçada à perspectiva do primo e ora ao ponto de vista de um narrador ausente), serve para estimular melhor o foco narrativo, que atravessa o contexto da vida de outros importantes personagens, traçando a trajetória de cada um e apurando, no tempo certo, grandes descobertas. Não demora para que se perceba que tudo e todos estão interligados e, a partir de então, chega-se à conclusão de que o destino cruzaria as vias iniciadas naquelas janelas abertas. A sonoridade que há na obra se dá muito mais pelo virtuosismo de Ademilson Chaves do que pela própria singela homenagem aos grandes compositores do cenário brasileiro, Vinícius de Moraes e Tom Jobim, ao intitular a obra e citar abertamente variadas vezes a música Janelas Abertas, de letra que muito diz do próprio primo instrumentista e de todos os seus mais intensos e guardados desejos. As notas ao piano parecem percorrer o livro inteiro e ditar todo o percurso deste solitário personagem, como "uma casa sombria, uma casa vazia, sem luz, sem calor...".

Quando se faz aquela paradinha para respirar fundo, é possível impressionar-se ainda mais ao enxergar a capacidade de o autor conseguir prender as pontas dessa trama, ora enriquecida com características de escrita que se assemelham demais à essência dos clássicos nacionais, que despertam até o cheiro das antigas páginas ao tatear as folhas do volume, e reavivam a atenção pelo eu lírico integrado à obra, o cujo autêntico, casmurro e saudosista, como a observar em: "...saí do quarto, apressado. Desci a rua, desconsolado. Uma tristeza cheia de saudade invadia meu coração. Eu já ansiava pelas próximas férias, quando Martha voltaria. No fim da rua, quando olhei para trás, ela estava na janela acenando para mim...".

Ademilson Chaves usa a formosa ambientação mineira para retratar uma parcela da realidade cruel, mas, oportuna, que os personagens vivenciam, descortinando um amontoado de sabores e descobertas em meio à tensão dos dramáticos momentos. 'Janelas Abertas' é um romance bem articulado que primeiro envolve, depois conquista, para, enfim, transformar o leitor que em vários intervalos se encontrará na própria trama. Esse é o ponto em que as partes se amarram: autor, leitor, personagem e enredo; mas que ainda restam peças pelo caminho que devem ser encontradas a fim da descoberta de um misterioso e terrível crime.

Ponderações inteiras podem ser feitas ao encarar os arquétipos de um mau-caráter aproveitador, de um felizardo petiz, de uma desorientada babá e da primeira e segunda vítimas, personagens tão bem trabalhados que traçam linhas verídicas e, assim como num drama da vida real, se apegam a recursos inesperados necessários para o seguimento. Enquanto isso, ao lado dessas linhas de tempo de círculos contínuos, o leitor acompanha a busca ''indireta'' do protagonista narrador pela perfeição da figura feminina, constituindo seus desatinos, dores e reflexões mais recônditas, e a dolorosa busca direta de Martha por sua filha desaparecida. É bom ressaltar que, a todo tempo, Ademilson Chaves mantém sua habilidade em caracterizar personagens e descrever, sem lero-lero, os detalhes, as ações e os sentimentos: "Eu engoli seco. Os olhos do garoto encontraram os meus e eles me deixaram desconcertados. Não sei bem o que senti naquele momento, sei que algo estranho tomou conta da minha alma. A voz do garoto era triste, o modo de falar me deixou inquieto".

As transições que as histórias carregam são breves e a ausência de mais trechos narrados da época de infância de Martha e o primo, se torna o único lapso do enredo durante os intervalos em que o narrador participativo explana. Ademilson poderia ter explorado ainda mais essa questão da paixão juvenil fazendo com que o primo relatasse, em alguns instantes do percurso da obra, mais lembranças marcantes com Martha na infância e adolescência. Entretanto, nada altera o objetivo de fazer o leitor levantar fortes reflexões quanto as escolhas e mudanças na vida, como as fases de transição por quais cada indivíduo deve passar. 'Janelas Abertas' é conduzido por uma linha de alta complexidade em relação à condensação dos fatos, mas o entendimento do leitor em momento algum fica em risco. Há diversos temas embutidos dentro do quadro central e isso também é uma das características do autor, que gosta de explorar as problemáticas e passar sua mensagem, como a da desigualdade social, tema bem intensificado e representado no livro, e a da força feminina, ideal presente mais necessariamente em três personagens.

Aos poucos, a trama altera-se para um trabalhado suspense e toma forma de um romance-policial. O leitor sente a necessidade de atentar-se melhor aos objetivos dos personagens e de rever os seus passos anteriores. A participação mais ativa de personagens que antes agiam como (secundários) é fundamental nesse momento, e Ademilson acerta em cheio ao amostrá-los somente nesse ponto. E o que dizer dos diálogos estilo novela, cheios de tinos e respostas? Realmente o cara arrebenta. Desaparecimento, vingança, assassinato, traição... elementos essenciais para se gerar uma boa trama e, claro, prender o leitor até o fim. As histórias não se misturam, se completam, e isso é muito importante. Ademilson Chaves surpreende ao apresentar 'Janelas Abertas', que supera suas anteriores criações e desenvolvimento de personagens. O autor seduz até o último suspiro com uma trama de excelência, que reúne as pitadas certas de mistério, drama e romance: "Um grito agudo e cheio de dor tomou conta do lugar. Rafael não resistiu e desmaiou... A polícia rodoviária logo chegou...".

Entende-se, finalmente que, em cada historieta conhecida dentro de 'Janelas Abertas', os personagens muito se assemelham; buscam respostas, correm atrás de seus objetivos, guardam seus mais secretos desejos e encontram seus adequados finais. O autor faz o leitor enxergar o lado humano de cada um e perceber que, independente de caráter e conduta, carregam suas igualdades. O contista, acompanhado de figuras marcantes, designa a possibilidade de mudança, da descoberta, do inesperado, da doação, e permite-se caminhar constantemente de janelas abertas para o seu ideal individual almejado. O sumiço da filha de Martha serve para que a personagem encontre seus próprios pedaços deixados pelo caminho desde a época de sua tenra infância e, para isso, precisa passar por dias ruins. Ao longo do excelente romance, nuances esquisitas, diferentes e marcantes apimentam a história nada artificial. Enxerga-se o talento do autor ao deslizar por suas letras para traçar a realidade dessas vítimas do destino tomadas por notas perfeitas da melodia citada no título. Todos, na verdade, em algum momento se sentiram verdadeiras janelas abertas, assim como casas sombrias e vazias, uma representação incontestável da vida. Descobre-se que o ser humano, muito mais do que a própria vida, é uma enorme caixinha de surpresas.

Ao término, fica a sensação de uma gostosa, tensa e sedutora viagem às essências humanas. 'Janelas Abertas' é um verdadeiro convite literário para que o leitor se permita abrir as janelas e abraçar suas lembranças atentando-se para o presente, deixando que seus sentimentos e emoções se acalentem vagarosamente. O trecho final (nostálgico) é narrado com o mesmo teor saudosista experimentado nos primeiros capítulos e encerra o livro de maneira brilhante. Particularmente, 'Janelas Abertas' causou em mim, por vários instantes, as mesmas sensações que tive ao iniciar minha jornada de leitor (lendo os clássicos romances da nossa literatura na adolescência). Com personagens misteriosos, intensos e apaixonantes, e uma escrita em que a métrica textual aproxima-se ao genuíno com facilidade, 'Janelas Abertas' pode ser interpretado como um verdadeiro 'clássico-contemporâneo' onde o autor expressa mais uma parte de sua genialidade, além de expor o seu nacionalismo. Experiência de leitura surpreendente em que as minhas expectativas foram, a cada capítulo, superadas facilmente. É um livro que certamente indicarei sem contestar, daqui por diante. Material muito bom, diagramação maneiríssima e preço baixo. Adquira por R$ 27,00 na página da Editora Selo Jovem.

Parabéns ao Ad Chaves e muito sucesso!


Sobre o livro

Título: Janelas Abertas
Autor: Ademilson Chaves
Estrelas:  ✮✮✮✮✮✮
Gênero: Romance
Páginas: 252
Ano: 2017

Sinopse: Martha é uma estudante de Medicina que se apaixona por Lucas, um colega da faculdade. Quando decide contar a ele que está grávida, Lucas a surpreende dizendo que está indo terminar seus estudos em outro país. Ela esconde a gravidez e vê o amado partir. Anos depois, Lucas está de volta, porém, Martha está casada e parece ter uma família feliz. Uma onda de acontecimentos invade a vida de Martha quando sua filha desaparece misteriosamente. Em meio a mistérios e caos, uma história de amor se desvela sob o olhar de um primo apaixonado, fazendo o leitor mergulhar num abismo de dores e amores, em busca do que é farsa ou realidade. Um marido infiel, uma babá misteriosa, um garoto de favela e uma violinista são peças fundamentais para desvendar o terrível crime cometido. “SERES HUMANOS PODEM NOS CONDUZIR AO PARAÍSO OU AO INFERNO. É DIFÍCIL SABER EM QUEM CONFIAR.

Sobre o autor

Ademilson Chaves é mineiro e como todo mineiro gosta de contar histórias. Muito cedo descobriu que gostava de livros tornando-se um leitor voraz. Formou-se na Faculdade Federal de Odontologia de Diamantina. Nas horas vagas descobriu um grande prazer, criar e escrever histórias capazes de prender o leitor ávido por uma boa trama.

O livro na Selo Jovem: https://goo.gl/T7JdT5
O livro na Amazon: https://goo.gl/GwfJQU
O livro no Skoob: https://goo.gl/z1kseZ
O Autor no Facebook: facebook.com/ademilson.chaves.56

Janelas Abertas, Disponível também em:

Mercado Livre / Amazon / Wallmart / Submarino / Shoptime / Americanas

11 comentários:

  1. Uau que resenha! Ad Chaves é sem dúvida muito talentoso, eu já li dois livros de sua autoria, são eles " A escolha de Eron" e o estranho. Ambas as obras são maravilhosamente bem escritas e elaboradas, mas particularmente eu gostei mais de " A escolha de Eron" no meu ponto de vista esse livro é mais que perfeito. Sua resenha aguçou minha curiosidade em ler essa obra, deve ser de fato, uma leitura excepcional. Forte abraço!

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    1. Cara leia esse livro, é realmente sensacional, vc não vai se arrepender.
      Ah, o Ad nasceu pra contar histórias e que bom que ele faz isso, é sempre bom ler os seus livros.
      Abraços.

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    2. Valeu, Luciano. Leia Janelas, quero muito saber sua opinião. Aliás, desde o princípio, quando lancei Eron, sua opinião como leitor tornou-se muito importante para mim. Abraço.

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  2. Léo, estou sem palavras diante dessa sua resenha, pois sempre considerei você, antes de tudo, um leitor exigente e um blogueiro zeloso; estava ansioso pela sua resenha porque sei que a partir dela posso ter uma ideia do que criei em Janelas Abertas. Muito obrigado pela sua avaliação sincera. Mais uma resenha que terei o prazer de mostrar a quem se interessar pelo livro.

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    1. Grande Ad, é uma honra, novamente, ler mais uma de suas maravilhosas histórias e me apaixonar ainda mais por sua escrita. PERFEITO! É o que eu tenho a lhe dizer.

      Desejo sucesso, sempre, e todo o reconhecimento que você merece. Grato pelo elogio quanto à matéria do portal. Costumo dizer que obras desse porte dão possibilidade à confecção de boas resenhas.

      Abração!!!

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  3. Léo, PARABÉNS pela maravilhosa resenha! E SIM, JANELAS ABERTAS, assim como tudo que o Ad escreve, é SENSACIONAL.

    Abraços literários,
    Simone Pesci
    http://simonepesci.blogspot.com.br

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    1. Olá Simone, grato por suas palavras.

      Concordo com você, a obra é SENSACIONAL e merece ser lida por tantos outros leitores. O Ad é um incrível autor.

      Beijos e obrigado pela visita.

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  4. Olá, tudo bem? Não conhecia esse livro, mas parece realmente ser uma leitura muito boa. Adorei sua resenha e fiquei curiosa!

    Beijos,
    Duas Livreiras

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    1. Olá, muito obrigado!

      Se ler, tenho certeza que irá gostar.

      Beijos!

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  5. Gente, com uma resenha tão apaixonada eu quero ler!
    Parabéns!
    Amo romances policiais, thriller e toda ambientação de Janelas Abertas.
    E que capa linda, né?

    Beijoooos

    www.casosacasoselivros.com
    www.livrosdateca.com

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    1. Teca, tenho certeza que adoraria o livro.
      Fica a dica de leitura. O Ad é singular.

      Beijos.

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