Paz de espírito


Somos por natureza seres que buscam incessantemente aquilo que não possuem. Esse comportamento tem levado muitos de nós a sofrer e se tornar criaturas frustradas e sem nenhuma fé em absolutamente nada. Vamos inconscientemente criando barreiras invisíveis que nos levam à solidão. Mas, se o homem é um ser social, então por que em algumas situações o mesmo procura a solidão? Seria a solidão um refúgio natural de seu medo? A tecnologia nos dias atuais tem contribuído para este comportamento cada vez mais enraizado no cotidiano de todos nós, ou por parte deles. Passamos tanto tempo conectados; seja jogando conversa fora com amigos virtuais, seja jogando online ou fazendo seja lá o que for, que quando nos deparamos com a realidade cara a cara falta-nos o que dizer. Seria essa atitude uma fuga inconsciente do homem? Seria a evasão de si próprio pela incompreensão de sua própria natureza de dualidades enigmáticas? Quando nos deparamos com amigos (aqueles que passamos horas e mais horas nas redes sociais), não sabemos nem o que dizer. Desaprendemos a ter uma conversa gostosa, sadia e interessante quando estamos frente a frente com o(a) outro(a). É triste, mas é a realidade em que nós acostumamos a viver. E, desacostumamos a viver aquela realidade que nossos parentes mais antigos viviam. Eita, tempos bons. Pena que o tempo não volta atrás, o mesmo só avança.

Aí vem a fuga, a evasão. Muitos de nós resolvem fugir para não ter de encarar a dura realidade. Antes só do que mal acompanhados. Tem gente que sofre horrores só de ouvir a palavra solidão. A dor de estar sozinho(a) causa uma irreprimível sensação de repulsa nessas pessoas. Saiba que uma simples avaliação do que é agradável e do que é desagradável para nós quase sempre é um julgamento de valor que fazemos diante à situação presenciada. E, se analisarmos com atenção, os julgamentos de valor são sempre muito individuais e também relativos a um momento específico do tempo. Aí veremos que no final das contas, podemos dizer que avaliaremos algo como desagradável ou agradável de acordo com o mesmo desejo. Quer um simples exemplo? Então vamos lá: suponhamos que eu esteja caminhando pela praia e começa a chover repentinamente. Se eu não estivesse desejando a indesejável chuva, logo eu avalio o momento como desagradável. Mas, se por um momento eu apenas sentir o que está acontecendo e, até desejar que chovesse, a situação se transforma de desagradável para agradável. Pode até parecer mágica, mas não é. É apenas um desejo banal e até mesmo corriqueiro de nossa parte, sempre egoísta de querer tudo do nosso jeito.

Outro simples exemplo, mas deveras informativo é: imagine uma pessoa que deseja encontrar um relacionamento, a mesma possui um desejo. O desejo de ter a companhia de alguém. Deste modo, a solidão será facilmente ligada a uma ideia desagradável. A pessoa logo pensa, "estou sem ninguém. Eu desejo estar com alguém". Logicamente para essa pessoa, a solidão é ruim. Pois a mesma possui o desejo de ter alguém. Mas estar sozinho muitas das vezes não precisa ser relacionado a algo ruim. Em alguns casos estar sozinho permite o espaço, tempo, o vazio e o silêncio para se fazer algo útil ou até mesmo o belo. Também nos permite não fazer absolutamente nada. Também permite desenvolvermos a nossa espiritualidade, tão renegada nos dias atuais. Não é mesmo? Encontrar-se enquanto uma pessoa diferente dos demais e se aceitar como se é independentemente da aprovação do outro(a) é sinal de maturidade espiritual e emocional. Um momento marcante de estar só e que não vemos uma referência tão frequente é a chance de ficar em total silêncio. Afinal, a linguagem serve basicamente para nos comunicar. E, se estamos sozinhos, não precisamos nos comunicar. Os tímidos, inclusive o que vos escreve, agradecem. Indivíduos tímidos são deficientes para falarem, somente o fazem quando necessário. Portanto, o estar só torna o silêncio viável. E cá entre nós o silêncio quase sempre nos traz tranquilidade, calma e uma paz que falatório em excesso nenhum traz e essa paz de espírito não tem preço. Pelo menos para os mais reservados como eu.

6 comentários:

  1. Que linda reflexão Luciano, acho que com o tempo, acabei me isolando também, e de certa forma não foi com a ajuda da tecnologia, mas dos livros. As pessoas me decepcionam muito.

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    1. Querida Melissa, nem me fale de decepção com as pessoas, já perdi as contas das inúmeras vezes em que as mesmas me decepcionaram. Abração!

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  2. Às vezes o isolamento é bom, como dito, é um estado que nos ajuda a encontrar a já esquecida paz de espírito.

    Hoje em dia é difícil de se encontrar pessoas dispostas a compartilhar. O egoísmo acaba resultando na escolha precoce do isolamento.

    Por que se querer uma companhia se a mesma não está disposta a compartilhar valores, instantes, sorrisos, etc? Dessa forma, escolhe-se involuntariamente o isolamento social.

    Texto forte, marcante, atual e verdadeiro.

    Abraços.

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    1. É bem por aí mesmo Leonardo! Forte abraço.

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  3. Sou muito tímido e isso cria um isolamento automaticamente em mim. Desde pequeno gosto muito de ler e sempre me chamaram de esquisito e nerd porque minha melhor companhia são os livros.

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    1. Veja o lado bom da timidez Pierre, ser tímido não é defeito é parte do comportamento da pessoa e, não dá para mudar isso. Valeu por comentar, abraço!

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