12 livros da literatura clássica nacional indicados pelo Marcas Literárias


O crescimento da literatura nacional vem gerando muitas críticas nos último anos em relação a sua qualidade, conflitando diretamente com o conjunto de conceitos já definidos nas obras clássicas, que muito agradavam os leitores mais antigos. As causas dessas dúvidas aparentemente são muitas e podem iniciar-se antes mesmo da leitura, de fato. Entretanto, não é sobre as obras contemporâneas que o artigo de hoje irá se expandir, e sim sobre obras sempre tão bem discutidas e que trazem em suas páginas as essências dos tempos de modernismo, iluminismo e tantos outros estilos literários tão bem representativos e que deixaram suas marcas no movimento nacional da escrita. É, certamente, injustiça criar uma matéria escolhendo apenas alguns romances considerados eternos ao ponto de vista crítico do Marcas Literárias, mas usaremos o artigo para prestigiar novamente a linda história que os clássicos fizeram no cenário brasileiro.

Vale entender que os livros escolhidos não são apenas simples romances, mas trazem forte teor de críticas sociais, de movimentos históricos, de tendências políticas e proporções relevantes sobre a figura humana. Os autores visaram contribuir na apresentação e idealização de um país com forte identidade, mostrando suas raízes e avanços culturais. As narrativas, muito se assemelham, mas cada escritor trazia um quê muito particular e marcante em suas linguagens. São mais de 200 anos desde a criação da Biblioteca Nacional e desde lá, incontáveis histórias de qualidade marcaram presença na grade de publicações. O Marcas Literárias apresenta agora um painel dos inesquecíveis clássicos brasileiros.

O Ateneu, (1888), Raul Pompeia

“– Vais encontrar o mundo –, disse-me meu pai, à porta do Ateneu. – Coragem para a luta.” A luta foi grande para Sérgio, o narrador que aqui revive a traumática experiência do internato e o sofrido rito de passagem da infância para a adolescência. E grande também foi a empreitada de Raul Pompeia, que com esse romance rompeu barreiras temáticas – como a homossexualidade e a formação viciosa da elite brasileira – e estilísticas, transitando livremente entre a ficção, a poesia e o ensaio. É o precursor da autoficção, um romance carregadamente autobiográfico, centrado nas desilusões do menino Sérgio em um colégio que era tido como o melhor o país. Ele descobre a falsidade e os comportamentos sórdidos de um mundo onde não há lugar para o amor e a amizade. Escrito com um cuidado de poeta parnasiano, este é o romance brasileiro em que a linguagem literária chegou ao seu ápice.

Macunaíma, (1928), Mário de Andrade

Macunaíma, o herói sem nenhum caráter é um canto vazado na língua portuguesa falada em nosso país. A saga de Macunaíma – Imperador do Mato – começa quando ele perde sua muiraquitã, um amuleto de pedra que havia ganhado de Ci, a Mãe do Mato. Acompanhado de seus irmãos Maanape e Jiguê, o herói viaja para o Sul em busca do amuleto, que estava em poder do fazendeiro peruano Venceslau Pietro Pietra. Encantado com a “civilização moderna”, Macunaíma, de certa forma, se vê dividido entre seu reino e as maravilhas de “São Paulo, a maior cidade do universo”. O mais divertido retrato do Brasil como um país que vive contemporaneamente em todas as idades do continente, no período pré-cabralino, no Brasil dos viajantes estrangeiros, na Colônia, no Império e na modernidade. O grande feito do livro é transformar as características do homem nacional tidas como defeitos em elementos positivos de nossa identidade malandra, ao mesmo tempo em que elege a pilhagem nos documentos como uma forma de invenção selvagem.

Vidas Secas, (1938), Graciliano Ramos

Romance em que mestre Graciliano alcança o máximo da expressão que vinha buscando em sua prosa. O que impulsiona os personagens é a seca, áspera e cruel, e paradoxalmente a ligação telúrica, afetiva, que expõe naqueles seres em retirada, à procura de meios de sobrevivência e um futuro.
Apesar desse sentimento de transbordante solidariedade e compaixão com que a narrativa acompanha a miúda saga do vaqueiro Fabiano e sua gente, o autor contou: “Procurei auscultar a alma do ser rude e quase primitivo que mora na zona mais recuada do sertão... os meus personagens são quase selvagens... A minha gente, quase muda, vive numa casa velha de fazenda. As pessoas adultas, preocupadas com o estômago, não tem tempo de abraçar-se. Até a cachorra [Baleia] é uma criatura decente, porque na vizinhança não existem galãs caninos”. Vidas Secas é o livro em que Graciliano, visto como antipoético e anti-sonhador por excelência, consegue atingir, com o rigor do texto que tanto prezava, um estado maior de poesia. Um romance montado com cenas avulsas, a partir de quadros, em que Graciliano Ramos acompanha a rotina desesperadora de nordestinos que vivem de fazenda em fazenda, isolados do mundo. Fabiano e Sinhá Vitória têm que tomar uma decisão crucial, eternizar este ciclo de exploração ou tentar dar aos filhos o estudo que eles nunca tiveram. Mais do que um romance sobre a seca e o nordeste, é uma narrativa sobre o poder da linguagem.

Grande Sertão: Veredas, (1956), Guimarães Rosa

Nesta obra de Guimarães Rosa, o sertão é visto e vivido de uma maneira subjetiva e profunda, e não apenas como uma paisagem a ser descrita, ou como uma série de costumes que parecem pitorescos. Sua visão resulta de um processo de integração total entre o autor e a temática, e dessa integração a linguagem é o reflexo principal. Para contar o sertão, Guimarães Rosa utiliza-se do idioma do próprio sertão, falado por Riobaldo em sua extensa e perturbadora narrativa.
Encontramos em ´Grande Sertão-Veredas´ dimensões universais da condição humana - o amor, a morte, o sofrimento, o ódio, a alegria - retratadas através das lembranças do jagunço em suas aventuras no sertão mítico, e de seu amor impossível por Diadorim. Verdadeira enciclopédia do Sertão, este romance avança barrocamente para todos os lados, mostrando um narrador sertanejo que usa filosoficamente a linguagem, modificando-a para tentar dar vazão aos seus questionamentos interiores. Riobaldo narra para nos e para se convencer de sua inocência em relação a três episódios centrais: o pacto que ele teria feito com o diabo, o fato de amar em Diadorim (a guerreira travestida de jagunço) a mulher e não o homem e as mortes que ele comete na jagunçagem.

Dom Casmurro, (1899), Machado de Assis

O romance é narrado em primeira pessoa por José Bento, o Bentinho (apelidado, na velhice, de Dom Casmurro, por viver recluso e solitário), que tenta reviver emoções afetivas com o objetivo de reconstituir o passado e sua história amorosa com Capitolina (apelidada Capitu). Torturado pelo ciúme, por não saber se Capitu havia ou não o traído com o amigo Escobar, Bentinho não consegue mais suportar a presença da mulher e do filho Ezequiel. Decide, então, separar-se deles. Em seguida, faz uma viagem com a família à Europa, onde ficam Capitu e Ezequiel. Bentinho volta sozinho ao Brasil. Após alguns anos, Capitu morre, sem ter retornado ao País ou revisto o marido. Ezequiel, já moço, faz uma única visita ao pai, morrendo pouco depois numa viagem de estudos ao Oriente. Bentinho, já velho, fecha-se cada vez mais na sua vida solitária, quando passa a ser chamado de Dom Casmurro. É nessa fase que decide escrever a história de sua vida. Ambientado no Rio de Janeiro do Segundo Império. Machado de Assis o escreveu utilizando ferramentas literárias como a ironia e uma intertextualidade que alcança Schopenhauer e sobretudo a peça "Otelo", de Shakespeare.

Triste fim de Policarpo Quaresma, (1911), Lima Barreto

Triste fim de Policarpo Quaresma é um romance do período do Pré-Modernismo brasileiro. Por meio da vida tragicômica do major Quaresma, um nacionalista fanático, ingênuo e idealista, Lima Barreto revela as estruturas sociais e políticas do Brasil da Primeira República, enfocando os fatos históricos do governo de Floriano Peixoto. Patriota doente, Quaresma teria enlouquecido se a Revolta da Armada não lhe desse a oportunidade de provar seu amor à pátria. Mas que pátria? Funcionários civis e militares sugando o Estado em benefício próprio? Criticando os costumes políticos brasileiros, o romance enfatiza a necessidade de se repensar nossa realidade social, constituindo um grito de protesto em meio à indiferença geral.

Amar, Verbo Intransitivo, (1927), Mario de Andrade

Amar, verbo intransitivo, obra do modernista Mário de Andrade, é transgressor à sua época por várias características. Uma delas é a ambiguidade que permeia todo o livro; começando pelo seu título. Amar, sendo um verbo transitivo, apresenta para o narrador outro significado; é intransitivo. O livro, considerado um dos marcos do modernismo brasileiro, conta a história de amor entre um jovem e sua instrutora alemã, Fräulein Elza. Mário de Andrade propõe-se a explorar o mistério da alma feminina com a criação da personagem-chave: a governanta alemã Fraülein, de 35 anos, contratada por Sousa Costa, patriarca da família, para iniciar sexualmente seu filho Carlos, de 16 anos. Contando com uma narrativa experimental, ousada, próxima da linguagem cinematográfica, o primeiro romance de Mário de Andrade é sem dúvida uma das referências mais significativas do modernismo brasileiro.

Til, (1872), José de Alencar

Publicada pela primeira vez em 1872, Til pertence, ao lado de O gaúcho, O sertanejo e O tronco do Ipê , ao regionalismo de José de Alencar e retrata o interior paulista. Nesse romance, a idealização da natureza, a narrativa leve e o subjetivismo da linguagem criam uma atmosfera suave, em que a inocência dos personagens centrais contrasta com a trama emaranhada e sanguinolenta. A beleza da natureza, tão valorizada e enaltecida pelos contemporâneos de Alencar, divide lugar com a brutalidade da realidade regional. Til é o apelido de Berta, moça "pequena, esbelta, ligeira, buliçosa" que se envolve nas mais intricadas tramas, sempre buscando ajudar os que precisam. Trata-se do ideal de heroína: doce, meiga, caridosa, mas também de coragem e impetuosidade únicas na literatura brasileira. Capaz de enfrentar jagunços, Berta não mede esforços ao buscar a realização de seus intentos. Violências, mistérios e triângulos amorosos constituem esta complicada e bela história.

Casa de Pensão, (1884), Aluísio Azevedo

Casa de pensão (1884), romance de Aluísio Azevedo estruturado segundo os padrões estéticos do Realismo-Naturalismo, relata a vinda do maranhense Amâncio de Vasconcelos ao Rio de Janeiro e a sua estada na Corte ao cursar o primeiro ano na Escola de Medicina. Os estudos afiguram-se maçantes para esse provinciano que anseia por aventuras amorosas na cidade carioca. A hospedagem na pensão de João Coqueiro e de Madame Brizard representa a independência sonhada e suas desventuras. À luz das teorias deterministas, as páginas descrevem a rotina local, sublinhando com fina ironia a degradação e a imoralidade que caracterizam o pensionato. Aluísio Azevedo focaliza, nesta obra, problemas como preconceitos de classe, de raças, a miséria e as injustiças sociais. Descreve a vida nas pensões chamadas familiares, onde se hospedavam jovens que vinham do interior para estudar na capital.

O Guarani, (1857), José de Alencar

Um dos romances mais importantes de José de Alencar – foi uma das primeiras obras criadas com o objetivo de fundar uma literatura brasileira autônoma em relação à tradição portuguesa. Foi inicialmente publicada em forma de folhetim, em meados de 1857, concedendo grande popularidade a Alencar. Quando, no final do mesmo ano, foi transformado em livro, sofreu pequenas modificações. Em meio à história de amor entre o índio Peri e a moça branca Ceci, José de Alencar cria uma narrativa épica, cheia de amor, aventura, traição, lutas e vingança, prendendo a atenção do leitor a cada nova página. O romance proclama a brasilidade, focando importantes aspectos da realidade brasileira do século XVII: o índio e o branco; a cidade e o campo; o sertão e o litoral.

Rosinha, Minha Canoa, (1962), José Mauro de Vasconcelos

Rosinha, a canoa, leva Zé Orocó pelas águas do Rio Araguaia, nos sertões de Goiás, transportando-o por um mundo onde quem manda é a mãe natureza. E o autor nos transporta para um mundo onde quem manda é a emoção e a sensibilidade, na história do homem simples e incompreendido por uma sociedade que o acusa de louco e o interna num hospício. O livro é um hino de amor e respeito à natureza, contando a trajetória de Zé Orocó, envolvido em “causos”, histórias fantásticas e lendas e sua amizade com uma canoa.  José Mauro resgata o encontro das coisas singelas e verdadeiras da vida. Em uma narrativa terna e plena de lirismo estão inseridos relatos de dois mundos paralelos: as histórias da floresta, contadas pela canoa, e a dura realidade da passagem de Zé Orocó pelo sanatório.

A Rosa do Povo, (1945), Carlos Drummond de Andrade

Publicado em 1945, A rosa do povo é o livro politicamente mais explícito de Drummond. É um poderoso olhar sobre a Segunda Guerra, a cisão ideológica, a vida nas cidades, o amor e a morte. Tudo isso é observado a partir daquela que então era a capital do país. O Rio de Janeiro, nossa primeira grande cidade cosmopolita, ocupa uma posição privilegiada nos poemas, a ponto de muitos críticos compararem a visão de cidade expressa pelo autor mineiro àquela de Charles Baudelaire (1821-1867), o poeta francês que foi o primeiro grande cantor da experiência urbana. Pois é escrevendo a partir desse Rio de Janeiro que se urbanizava freneticamente, dando as costas ao passado, que Drummond fala da guerra e de seus desdobramentos no continente europeu e presta seu tributo aos milhões de civis que pereceram no conflito, além de refletir sobre a própria possibilidade de expressar todos esses acontecimentos em verso. Formalmente falando, A rosa do povo é um livro que pertence ao alto modernismo, em que Drummond experimenta o verso espraiado à maneira de Walt Whitman, ironiza o passado literário brasileiro e exercita as mais diversas formas e dicções nos cinquenta e cinco poemas reunidos no volume. Com sua beleza e profundidade, A rosa do povo traz um Drummond de vasto escopo temático. A personalidade do poeta, a família, o cotidiano e a História comparecem com inaudita força neste livro. Trata-se de um testemunho de suas ideias e afetos num momento da vida em que experimentava a maturidade e já começava a olhar para o passado enquanto captava, como poucos autores, os sinais confusos de seu próprio tempo.

4 comentários:

  1. Adorei as indicações Leonardo! Livros clássicos são excelentes para serem lidos por todos. Abraço!

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    1. Valeu Luciano! Ler um clássico sempre é muito bom.

      Abraço!

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  2. Oi Léo,
    Já li todos os livros indicados!! Acho que todo mundo deveria ler esses clássicos... são incríveis mesmo!!
    Blog Entrelinhas

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    Respostas
    1. Olá Felipe, obrigado pela visita.

      Concordo com você amigo. Todos deviam lê-los e admirar-se com o conteúdo incrível em cada um.

      Sou um grande admirador da literatura clássica.

      Abraços.

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