Sentimentos e muito primor em 'Laminário', novo livro de Margarida Patriota


Apreciar a beleza, claridade e alma de nossos poetas brasileiros nem sempre é uma tarefa fácil, pois poesia é, primeiramente, para ser sentida antes mesmo de se querer ousar entendê-la. Entretanto, para muitos simpatizantes do gênero, e para os de espírito sensível e transparente, poemas caem como luva em dias de tristeza, euforia, chuva ou sol e rasgam, sem pedir anuência, o xadrez entre o sentimento e a falta do mesmo. Nesse Laminário, sentir todo o âmago de ideologias de Margarida Patriota é a sequela deleitável da leitura da obra, preenchida com noventa e dois poemas que circulam desde a temática amor aos tópicos dos tempos modernos onde a ausência do sentimento tornou-se comum e quase que substituída (ou abafada) pelo excesso dos traumas sociais.

A autora exibe (além de seu dom indiscutível para compor e rimar com musicalidade), segurança e muita vibração em suas composições. Sua obra Laminário é como uma verdadeira aquarela de poemas que encanta, abraça e prende o leitor, possibilitando-os, junto à autora, a enxergar a vida de maneira poética e refinada. A saudade também é um mote constante e toca o leitor com singeleza e gosto, quebrando qualquer antepaixão aos poemas e constatando a qualidade literária em Laminário.

Ressalta-se que, a concentração é sempre um ponto necessário quando a iniciação de um livro de poemas é feita. Por se tratar de obras em que palavras mais complexas e de pouco uso no dia a dia se unirão com outras tão bem escolhidas por seus poetas para, então, formar a harmonia perfeita da composição, o índice adequado de toda a atenção do leitor é um fundamento, sem dúvida, exigido. A exemplo de Laminário que, só então, articulado pelo espírito envolvente da poeta, o leitor entra em seus mundos reflexivos, românticos, atuais ou passados, marcados cada quais por um toque especial da singularidade preciosa de Margarida Patriota. Visualizar seus pensamentos torna-se possível e magnífico quando o leitor se permite viajar por eles, e acredite, são todos muito belos e com variadas tonalidades literárias agradáveis demais.

A leveza, a tensão, o tempo, os contratempos, as cores, a falta delas, a inquietude da realidade e a finitude da vida caracterizam a obra e produzem um "efeito roda-gigante" cujo os extremos são atraídos e refletidos sem se notar. Um coloquialismo genuíno é encontrado nas composições da experiente autora. Em Paralelo um ritmo e rima é absorvido de maneira a substanciar intervalos distintos no leitor, e caminhos próximos de personagens quaisquer são percebidos quando, ao mesmo tempo, sente-se a cruel distância destinada aos mesmos:

Estreamos juntos no calendário das eras
Tu a te exprimires na língua dos possessos
Eu a me expressar tout court
O mesmo tiro deslanchou tua corrida louca
E minha marcha lenta
Buscaste atalhos na rota
Busquei não abreviar caminhos
...

É certo que se estivessem aqui antes de uma Camada Pré-pó, Marco Polo, Colombo, Cabot e Livingstone leriam com olhos vidrados, vibrantes e aprimorados o som, o tom, o modo da expressão da poesia transmitida como Tranças e Truísmos em um Penumbrismo às extremas, onde a escrita vira arte com Torque;

...
Cujo som propague
O eco das eras
O grito da hora
O murmúrio do instante
O suspiro das circunstâncias sem pompa

O Desencontro de Gerações também compõe as surpresas deste Laminário; este é um momento especial durante a leitura, onde o personagem em questão é tratado "A milho e grãos que bastem... / Sem ser camelô... / Sem ser gigolô... / Sem ser crupiê... / Sem ser carregador", e a autora aponta sem medo e com muita sagacidade os disfarces do universo contemporâneo. O Poema revela, com segurança, as diferenças do ser, estar e pensar; um jogo onde as aparências e todo o contexto social é transmitido em forma de rima.

Com honestidade e relento, Margarida Patriota ainda traz reflexões sobre o fim, sobre o último croissant, sobre o suco de maça; em Bala Perdida a realidade é o verdadeiro alvo. Sem grito, sem chance, sem romance... só um lance, um chumbo, a falta de sorte ou muito da sorte sobrando. A variação de interpretações andeja o livro, e como dito pelo querido Jorge Viveiros de Castro, poesia deste quilate é mesmo artigo raro de se ver.

Margarida Patriota poderia ter também sobrenome Poesia ou Poeta. Seria válido e gratificante para os versos,  dar a esta joia preciosa da literatura nacional o nome de sua mãe Poesia à eternizá-la. Ela, autora, sabe dar Valores, Elegia, "Minha praia, minha serra / Meu farol de Alexandria!". A Tolerância, o Tato e os Tristes Trópicos são poemas que retratam de forma tênue as divergências religiosas, as feridas mais profundas, o bê-á-bá da flora brasileira enquanto um compasso jeitoso e infantil vai tomando conta do leitor em Meus nove anos, momento em que um grande nome da literatura brasileira é citado por Margarida em uma arte de relembrar instantes inesquecíveis da vida:

...
Pesquei peixes na lagoa
Pedalei de pedalim
E, na moita, com o Lobato
Aspirei pirlimpimpim

Com certeza, Margarida Patriota veste poesia e compartilha versos e rimas de forma agradável para o seu leitor. Laminário conquista por sua variedade de domínios e pelo êxtase literário do gênero que, por sinal, nem todos que tentam conseguem criar. A autora, em figura de poeta, consegue o feito de aprimorar os sentimentos do leitor e lapida-los com requinte. Obra mais que indicada para os amantes do gênero e que pode ser lida por todas as idades.

Sobre o livro

Título: Laminário
Autor: Margarida Patriota
Gênero: Poemas
Páginas: 112
Ano: 2017
Estrelas: 

Sinopse: Linguagem incisiva, senso de humor e mesmo autoironia, ampla diversidade de temas (que vão do amor nos tempos do mouse, ao contrabando, passando por balas perdidas e trombadinhas) marcam a primeira coletânea de poemas da escritora, professora e tradutora Margarida Patriota – Laminário – que sai em abril de 2017, pela Editora 7letras, do Rio de Janeiro. Autora de 28 livros, entre romances, contos, ensaios e literatura para o público infanto-juvenil, a autora reúne suas composições poéticas em um volume que reflete a combinação de rigor literário e sentimento, que constitui sua obra. Seus poemas são curtos e belos, demonstrando riqueza de vocabulário, domínio sobre ritmo e rima, requinte, simplicidade e inventividade.

Sobre a autora

Margarida Patriota é autora, entre outros, dos juvenis Uma voz do outro mundo (Ed. Dimensão), agraciado com o Premio João de Barro, e Enquanto aurora (7Letras), Prêmio UBE/RJ, ambos com expressivas vendas para o Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE). Seus livros mais recentes são a novela U´Yara, rainha amazona (Saraiva); o romance A lenda de João, o assinalado (Topbooks), inspirado no poeta Cruz e Sousa; a tradução para o português do romance de Henry James,  A herdeira (7Letras); e Autores e Livros na Rádio Senado (Ed. Senado Federal), reunião de suas melhores entrevistas com outros escritores à frente do programa do mesmo nome, que ela produz e apresenta, há 20 anos, na Rádio Senado.

O livro na Cia dos Livros: https://goo.gl/jmDhgX
Editora 7letras: http://www.7letras.com.br
Oasys Cultural no Facebook: http://www.facebook.com/oasyscultural

4 comentários:

  1. Livros de poemas e ou poesias é alimento para a alma e, esse que tu resenhaste é requintado. Adoro me alimentar desse gênero literário. Abraço!

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    1. Sim Luciano, exatamente. Poemas são alimento para a alma.
      Obrigado pelo comentário.

      Abraços!

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  2. Livros como este tem que ser lido com o coração e a alma. Adorooooo!!!
    Parabéns a escritora pela obra e a vc pela resenha encantadora.

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    1. Toda poesia é realmente alimento para a alma e dever ser lida e, logo então, absorvida pelo coração.

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