Um modelo de herói em 'Triste Fim de Policarpo Quaresma', clássico de Lima Barreto


O romance de Lima Barreto, precursor do pré-modernismo, foi publicado pela primeira vez em 1915 de forma impressa, e traz para o leitor uma forma muito peculiar, crítica e, de certa forma, irônica de escrita, representada também pela formalidade e beleza nas palavras. O enredo se passa no Rio de Janeiro num momento em que o país passava por intensos conflitos e revoluções. "Saiu e andou. Olhou o céu, os ares, as árvores de Santa Teresa, e se lembrou que, por estas terras, já tinham errado tribos selvagens, das quais um dos chefes se orgulhava de ter no sangue o sangue de dez mil inimigos. Fora há quatro séculos. Olhou de novo o céu, os ares, as árvores de Santa Teresa, as casas, as igrejas: viu os bondes passarem; uma locomotiva apitou; um carro, puxado por uma linda parelha, atravessou-lhe na frente, quando já a entrar do campo... Tinha havido grande e inúmeras modificações".

A agricultura e a política são temas patentes da obra. A narrativa em terceira pessoa, apresenta um personagem até certo ponto, amargo, e suas aventuras e desventuras sociais na busca de sua importância para a pátria tanto amada. Major Quaresma exibe uma alma nacionalista ao extremo e figura entre tantos burocratas no romance da época. A forma de o autor utilizar com um certo excesso a sua visão nacionalista, reflete também o degradê político e social do Brasil Monárquico ao Republicano. Muitos leitores e críticos encaram essa referência como uma sátira à passagem do século XIX para o século XX. O autor também impulsiona críticas quanto a mulher na sociedade e não teme ao apontar as falhas nas políticas trabalhistas. O romance, que é dividido em três partes, exprime em suas primícias a trajetória do protagonista na luta quase que desenfreada contra um estrangeirismo vigente no país. 

Em um segundo momento, a política — mesmo que não demonstrada com tanto vigor e não talhada como "o único centro de debates no romance" — é impressa no enredo de forma a elucidar o momento que o país vivenciava naquele tempo. O patriotismo exibido por Lima Barreto, não é de um todo inventado e torna-se um precursor da encenação política do novo século. Essa é uma das vertentes do autor, que construiu um romance e personagens de impacto e uma temática condizente ao pré-modernismo.

Encontra-se, claro, em demasiado, muitas características e elementos típicos do Brasil. Fica claro no trecho: "Policarpo era patriota. Desde moço, aí pelos vinte anos, o amor da pátria tomou-o todo inteiro. Não fora o amor comum, palrador e vazio; fora um sentimento sério, grave e absorvente. Nada de ambições políticas ou administrativas; o que Quaresma pensou, ou melhor: o que o patriotismo o fez pensar foi num conhecimento inteiro do Brasil, levando-o a meditações sobre os seus recursos, para depois então apontar os remédios, as medidas progressivas, com pleno conhecimento de causa'', o empenho do marcante Quaresma em intermédio à sua nação. Fazia-o por amor, por gosto profundo ao que nasce e está enraizado no país. "Triste Fim de Policarpo Quaresma" é um romance que ainda embate o cenário atual da política nacional. A jurisdição e seu domínio sobre o povo é caracterizado pela interposição do grupo dominante político que acaba por estabelecer as necessidades da sociedade privando-a de arrematar o seu veredito final; diz-se o poder político que: "Fala-se pelo povo. Atua-se por ele", quando na verdade, deixa-o em desfalque quanto a sua característica primordial, o poder de decisão.

Momentos em que a desigualdade social é apresentada no contexto do enredo, não faltam. Mais uma vez um "tiro contra as autoridades" é dado por um dos romancistas clássicos nacionais. Marechal Floriano, que assumiu a presidência do Brasil em 1891 após renúncia de Deodoro da Fonseca, tornando-se assim o segundo presidente brasileiro, consolidou a Revolta da Armada e é também parte do grupo de personagens de Lima Barreto. A leitura não é de um todo fluída, e em muito momentos, mesmo quando os personagens secundários são trabalhados de maneira central à atrair os olhares daquele que lê e completar a história, o leitor pode tropeçar, tanto por razão do vocabulário requintado que os clássicos romances apresentam, quanto pela falta de interação e ação no enredo. Entretanto é, sem dúvida, uma leitura recomendada para todos os tempos pois carrega um forte teor histórico nacional. E para que os leitores mais novos se posicionem melhor sobre o assunto Estado nos dias da sociedade brasileira do século corrente, o romance é um ótimo complemento elucidativo. 

Um fato muito apreciável é que Major Quaresma, muito bem caracterizado e informado por Lima Barreto, desempenha o papel perfeito do clássico homem rechonchudo da época, com métodos e rotina repetitiva mas que em meio ao solitário conservadorismo, achava um lugar para os livros que tanto lhe preenchiam um cantinho na estante: "Havia perto de dez, com quatro prateleiras, fora as pequenas com os livros de maior tomo. Quem examinasse vagarosamente aquela grande coleção de oi livros havia de espantar-se ao perceber o oi espírito que presidia a sua reunião. Na ficção, havia unicamente autores nacionais ou tidos como tais: o Bento Teixeira, da Prosopopéia; o Gregório de Matos, o Basílio da Gama, o Santa Rita Durão, o José de Alencar (todo), o Macedo, o Gonçalves Dias (todo), além de muitos outros. Podia-se afiançar que nem um dos autores nacionais ou nacionalizados de oitenta pra lá faltava nas estantes do major". Muito já começa a se entender sobre Policarpo, já que a esses nomes citados pelo narrador, dava-lhes devidos valores por confrontarem de maneira constante variados problemas da sociedade e apresentarem com louvor as belezas e traços nacionais em seus romances publicados.

A verdade é que o leitor se agrada ao refazer os passos do sistemático Major Quaresma, que — infelizmente — tem o seu final anunciado já no título da obra. Decerto, Policarpo Quaresma é retratado por Lima Barreto como um verdadeiro herói patriota que não se corrompeu e serve de modelo para um Brasil do século XXI. 


Sobre o livro

Título: Triste Fim de Policarpo Quaresma
Autor: Lima Barreto
Gênero: Romance
Páginas: 216
Ano: 1915

Sinopse: Para Major Quaresma, a Pátria é um ideal que está acima de tudo. Visionário por excelência, suas idéias colocam-no em várias situações embaraçosas e levam-no até a ser internado em um manicômio. Tímido, discreto, ingênuo, é também uma palha de pureza a navegar num oceano de podridão. Este é um livro escrito com todos os nervos, mas principalmente com o coração, e que se destina a quantos tenham orgulho de ser brasileiros.

Sobre o autor

Lima Barreto, (Rio de Janeiro, 13 de maio de 1881 — Rio de Janeiro, 1 de novembro de 1922), foi jornalista e escritor. Publicou romances, sátiras, contos, crônicas e uma vasta obra em periódicos, principalmente em revistas populares ilustradas e periódicos anarquistas do início do século XX. A maior parte de sua obra foi redescoberta e publicada em livro após sua morte por meio do esforço de Francisco de Assis Barbosa e outros pesquisadores, levando-o a ser considerado um dos mais importantes escritores brasileiros.

O livro no Skoob: https://goo.gl/KPgXf0
O livro na Saraiva: https://goo.gl/zfFbxG

4 comentários:


  1. Muito boa a sua análise Leonardo e, apesar de sucinta a mesma ficou agradável de se ler. Eu não li esse clássico nacional e mesmo que o romance tenha sua devida importância para a literatura nacional eu não o leria, simplesmente porque o tema principal é a política. Tenho uma certa hojeriza em ler livros de política. Estou com asco dessa situação que o Brasil se encontra na atualidade e, eu podendo evitar esse tipo de obra eu os evito. Mas acredito que essa obra é importante para essa garotada que está aí. E, é bom eles lerem algo de importante que não seja somente entretenimento. Abraços!

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    1. Valeu Luciano!
      Realmente a política do nosso país anda um asco. Nunca fui fã do tema mas o livro é maravilhoso. Recomendo!

      Forte abraço.

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  2. Oi Léo. Acredita que nunca li este livro, mas depois de sua análise não posso deixar passar.
    Vai ser minha próxima leitura com certeza.Beijos!!!

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    1. Oi Luh, leia sim, é muito bom. Você vai entender os reflexos similares aos dias atuais.

      Beijos e obrigado pela visita de sempre.

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