Lovecraft em pauta e uma certa 'Cor que caiu do céu'


O terror cósmico está na área. HOWARD PHILLIPS LOVECRAFT transpõe-se no profundo do cosmicismo e apresenta ao leitor, novamente, um cerco literário muito complexo e cheio de mistérios e individualidades bem excêntricas. O tom obscuro toma conta dos escritos e toda a sua formosura solitária e arruinada exemplifica o próprio autor em A COR QUE CAIU DO CÉU. "O local não é bom para a imaginação e não traz sonhos repousantes de noite. Deve ser isto que mantém os forasteiros à distância, pois o velho Ammi Pierce nada lhes contou do que êle se lembra daqueles dias estranhos. Ammi, que há anos já não é certo da cabeça, é o único que ainda resta, ou que ainda fala daqueles dias estranhos; e ele só ousa fazê-lo porque sua casa está muito próxima dos campos abertos e das estradas em uso na região de Arkham". 

Os caminhos astrológicos e os traços tenebrosos que o autor exibe chamam a atenção dos novatos no gênero e fazem os mais antigos se apaixonarem repetidamente. O maligno é exposto até mesmo através do codinome Arkham, que faz parte de seu cenário peculiar. Como em uma viagem extremamente misteriosa e cercada por sombras de contos de terror, Lovecraft transmite o incerto com tanta convicção que, para aquele que o lê, a sensação de estar vivenciando tais narrativas reais, cresce como uma lutuosa medula em torno do próprio ser e da própria crença. O leitor sente-se no abismo de um dos maiores autores de contos de horror clássico, como já o citava Stephen King, e passa a caminhar por seus acontecimentos onde os elementos mais insociáveis como árvores de formas esquisitas, antigos rochedos, casas velhas e tenebrosos vales são usados como grandes intérpretes, não somente neste, mas em muitos ou quase todos os seus contos. "Não podia retornar àquele caos sombrio de florestas velhas e encostas ou voltar a enfrentar a cinzenta charneca crestada, onde o poço negro escancarava a goela ao lado de tijolos e pedras tombadas".

É tão belo citar a atmosfera cósmica quanto senti-la durante a leitura. O oxigênio do ocultismo e o simbolismo satânico dão à luz a uma interpretação Além-mundo demonstrada em muitos trechos. A COR QUE CAIU DO CÉU não refere-se a, ou somente a fragmentos que caem sobre a Terra causando sua devastação, mas sim, aos infames estilhaços recebidos na vida, aqueles que suscitam no ser físico e principalmente psicológico, a destruição parcial ou total de seu propósito. 

Entretanto, Lovecraft consegue aplicar e transmitir o sentido natural, geográfico e astrológico tão perfeitamente que torna-se impossível não admirar todo o seu contexto como autor. Entende-se então, dessa forma, a necessidade extrema da criação dos grupos de observadores de sua escrita e pessoa. A genialidade o acompanha desde o início, desde os tempos de seus pesadelos. A gradação do horror para o científico é transcendente e retira o foco rapidamente do motivo sombrio, deixando o leitor preso nas justificativas cabíveis para os desfechos do conto, que unidas a acontecimentos fenomenais, maximizam a originalidade do escritor. "Em primeiro lugar, era magnético, e após imersão nos solventes ácidos deixava transparecer tênues traços das figuras de Widmänstätten encontradas em ferro meteórico. Quando o esfriamento se havia tornado considerável, as experiências continuaram em vidro; e foi num recipiente de vidro que deixaram tôdas as lascas tiradas do fragmento original durante o trabalho. Na manhã seguinte, tanto as lascas como o recipiente haviam desaparecido sem deixar vestígio, e apenas uma queimadura assinalava o lugar na estante de madeira onde haviam sido colocados".

Essa mistura é mais que interessante e quando aplicada de maneira excelente como em A COR QUE CAIU DO CÉU fomenta a mudança de perspectiva quanto ao Universo e seus fundamentos, afinal a fantasia caminha ao lado da realidade e todos os sonhos ou pesadelos nada mais são do que os reflexos e desejos da vida que se tem no mundo ou fora dele. Lovecraft é um gênio desse meio e nos mostra personagens novamente incomuns mas que fazem o diferencial do conto, na verdade, são o próprio espírito da narrativa. Quando se lê o trecho: "Em maio chegaram os insetos, e o sítio de Nahum transformou-se num pesadelo de seres que zumbiam e rastejavam. As criaturas, na maioria, pareciam diferentes em seu aspecto e movimentos, e seus hábitos noturnos contradiziam todas as experiências anteriores", se tem a rápida impressão da chegada a um estado apocalíptico onde as causas científicas contradizem as versões religiosas. A familiaridade de Howard Phillips a seus pesadelos inclui também, em relação a literatura, sua escrita rebuscada, lúgubre e harmoniosa que novamente é apresentada neste conto.

Leiam e se deliciem com o terror cósmico do cara:''Algo de terrível chegou às colinas e aos vales naquele meteoro, e algo de terrível — se bem que não saiba a sua proporção — ainda permanece... — "não se pode fugir... pega a gente... mesmo sabendo que a coisa está vindo não se pode fugir...". O final é tão sinistro que chega a ser agonizante.

4 comentários:

  1. Muito boa sua indicação Leonardo! É sempre, muito prazeroso ler Lovecraft. Abraço!!

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    1. Valeu Luciano!!!

      Lovecraft é demais.

      ABRAÇOS!

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  2. Parabéns adorei a resenha. Cada vez mais me apaixono por este gênero terror é incrível.

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    1. Eu amo TERROR, Luh! So suspeito para falar qualquer coisa sobre ele. rsrs
      Beijos.
      Venha mais vezes por aqui.
      Adoro tuas respostas no blog.

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