Humberto Gessinger, líder dos Engenheiros do Hawaii, nos pede 'Seis Segundos de Atenção'


Seis Segundos de Atenção / Humberto Gessinger / 168 páginas / 2015 / Crônicas / COMPRAR

A única coisa que podemos fazer com o tempo é escolher o que fazer com ele. Na busca pela faísca da criação da sua arte, que ele persegue pelas noites como uma estrela guia, Humberto Gessinger nos mostra em seu novo livro de crônicas que fazer um segundo valer a pena leva tempo. Um tempo que, às vezes, não queremos ter. Um tempo que não podemos parar nem fazer andar mais rápido. Não é tão fácil quanto parece encontrar um instante mágico, o centro da nossa originalidade, do nosso talento, e manter a conexão com ele. Leva mais do que 600 anos de estudo. Leva 6 segundos de atenção.


As canções, a melodia, o sucesso, as ideias... Viajar pelas concepções de HUMBERTO GESSINGER e dar a ele muito mais do que os SEIS SEGUNDOS DE ATENÇÃO — proposta intitulada a seu livro —, é um ganho poético e intelectual que o leitor levará pelo resto de sua existência, mesmo não sendo fã do líder dos Engenheiros do Hawaii e apaixonado por seu trabalho como compositor e músico, ele sabe, desde a apresentação da obra, que o chapéu a Gessinger deve ser retirado com razão, afinal, suas crônicas expressam com sutileza e elegância, não somente marcos de sua carreira artística mas também sinopses incontestáveis da política, da música, da ética e da sociedade. "Marcando o tempo com o esporro da picareta na cerâmica e misturando canto e assobio, ele fazia uma versão incrível de Terra de Gigantes. Ali estava minha música respirando a vida real sem nada condicionando o ar ao seu redor".

De maneira solúvel, o grande e ilimitado Gessinger, ilumina a mente do leitor através de sua própria luz intelectual e simplifica as causas e consequências das tão faladas portas fechadas; repassa então, soluções, explicações e atribuições magnéticas (perfeitas) para tais situações. Digo ilimitado Gessinger pois ao enxerga-lo adiante do cenário popular da música, da arte e cultura nacional, encontra-se alguém experiente, indispensável e relutante em relação ao quadro figurativo à vida e suas possibilidades. 

"(Especialistas dizem que um acidente aéreo nunca acontece por um único motivo. É sempre uma sucessão de falhas que causa o desastre. Vale para quase tudo na vida. Syd Barret não saiu do Pink Floyd só porque filava cigarros, Lemmy Kilmister não osaiu do Hawkwind só porque se atrasou para uma gig, os Beatles não acabaram só porque John trocou Paul por Yoko, o Brasil não perdeu pra Itália em 82 só porque Júnior não fez a linha de impedimento, nem perdeu pra França em 86 só porque Zico errou um pênalti. Mesmo o jogo que termina 1x0 não é decidido por um lance só. Namoros não começam por um único beijo e não terminam por um único motivo.)".

A originalidade é um termo que por mais bem definido que seja, recebe uma nova nomenclatura e definição durante os seis segundos de atenção pedido por Gessinger. Se no cotidiano a expressão não foge ao senso da qualidade do que é inusitado, do que não foi ainda imaginado, dito ou feito; se limita-se à capacidade para expressar-se de modo individual e com extravagância, no mundo paralelo do baixista que viveu a Revolta Dos Dândis I & II, a peculiaridade ganha um caráter quase que abstrato e imperfeito que transmite, convoca e posiciona o centro, a origem dos originais e a conexão com o que há de mais forte dentro de si, como o rapaz na Terra de Gigantes, que durante muito tempo não buscava a posse de uma guitarra elétrica, sim a origem de sua juventude, a causa ou consequência da necessidade de se inventar primeiro, antes de achar preciso se reinventar: "Ensinar a si mesmo, aprender com as próprias canções... não recomendo e s t e bootstrap a ninguém. É perigoso. Olhar para o espelho, recomendo. É necessário. A fina linha que separa o perigo da necessidade é tarefa de cada um desenhar. Nenhum mestre pode fazer isso por nós".

O pensamento, o silêncio, o destino. A aerodinâmica num tanque de guerra... A naturalidade das várias formas de se expressar um mesmo conteúdo e de se ter um produto final quase que blindado à qualquer contrariedade é uma das formas de entorpecimento emocional escrito por Gessinger. Como diria o próprio, uma Perfeita Simetria, só que baseada nas expressões naturais dos indivíduos.

O livro traça essa junção de poética e formas, de escritor e conteúdo, de fama e silêncio e designa, em ares refinados, uma igualdade, um paralelo. Em outros momentos, observa-se que são apenas pensamentos soltos de um cara comum, de um baixista qualquer que saiu de um certo Porto Alegre da vida; de um cara de sonhos já vividos, que narrou em algum instante da vida, os inimigos na trincheira. Interpreta-se nos Seis Segundos de Atenção esse elo de pessoa-mundo independente de quaisquer conquistas ou ocupações. Viajar e transmutar-se pelas ideologias e memórias de Gessinger é tão bom quanto transpassar as barreiras do horizonte de uma Infinita Highway. 

Ao citar Freud, Caetano e Schopenhauer na seguinte frase, o autor de Seis Segundos de Atenção imortaliza um momento único que jamais imaginava-se encontrar numa vida real: "Narciso é aquele que (segundo Caetano Veloso na letra de Sampa) acha feio o que não é espelho. Freud, como todo grande poeta, sempre dá pano pra manga. Seja na sala de aula ou na mesa do bar. Tentando descobrir mais sobre o tal narcisismo das pequenas diferenças, dei um search no amansa-burro digital e tropecei numa parábola de Schopenhauer: Em um gelado dia de inverno, os membros da sociedade de porcos-espinhos se juntaram para obter calor e não morrer de frio. Mas logo sentiram os espinhos dos outros e tiveram de tomar distância". 

Em seis capítulos, Gessinger reúne com o humor atraente, carisma e um monte de elegância, ideias capazes de envolver o leitor e fã com facilidade, já que entender a alma deste poeta remanescente dos anos onde o rock and roll brilhava com sua melhor essência aqui no Brasil não é tão difícil quando pensado com a simplicidade que se requer um instante de observação. "...  antes de decolar, eu não gostava de viajar! Por isso creio num Deus com senso de humor. Quer contar uma piada para ele? Faça um plano". E, com um Tchau Radar, o músico encerra algo que na verdade continuará vivo em cada um dos leitores após os Seis Segundos de Atenção.

4 comentários:

  1. Eu aprecio por demais o trabalho dessa banda! E, o Gessinger é fora de série. Excelente a sua resenha da obra. No ano anterior eu li esse livro e, o mesmo me agradou bastante. Abraço!

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    1. Valeu Luciano. Realmente o cara é fora de série. E quanto a banda, uma das minhas preferidas desde sempre.

      Abraços.

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  2. Adorei sua resenha Léo e este livro deve ser fantástico!!!

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    1. Obrigado minha querida.
      O Livro é sim, excelente.
      Beijos.

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