Cigarros e conhaque


Enquanto arrumo as velhas camisetas na gaveta do quarto, o silêncio na casa evidência a solidão. Os cômodos que, ocasionalmente, se viam lotados de vozes diferentes, há pouco reverberam o vago. De jovens, adultos. Do novo e do velho. A fumaça do cigarro empestando o corredor. As náuseas. O corre-corre das crianças. Os latidos de um vira-latas. Ela deu adeus. Ele saiu sem dizer nada. Os outros, nem sequer os viu partir. A figura no espelho, de expressão caída, olhos-negros-brilhantes-fundos. O alguém que ficou enquanto as lembranças se foram. O alguém que, por pensar ser ninguém, despediu-se mudo, pior que baratas de assoalho, enquanto via o seu presente partir para o passado. A figura franzina que agarrada a um copo de conhaque, segura entre os outros dedos um cigarro pela metade, e transborda o rosto com o fluido lúcido e amargo ao olhar-se com vergonha, a mesma figura, agora sou eu.

Leonardo Otaciano

4 comentários:

  1. Que crônica maravilhosa Leonardo! Esse texto fez-me lembrar da figura que vos escreve. " Ele saiu sem dizer nada. Os outros nem sequer os viu partir. O alguém que, por pensar ser ninguém despediu-se mudo. Esse pequeno trecho na crônica, de alguma maneira me fez relembrar-me o que de certa forma, sou em essência. Um ser invisível aos outros e muito melancólico em meu âmago de existência. Abração!!

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    1. A essência do texto é bem profunda. A ideia chegou, a ideia veio e não pude deixar que se perdesse. Que bom que a crônica tenha o feito sentir-se parte dela.

      abraços!

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  2. Léo parabéns, adorei !!!!Você é showww

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    1. Luh, muito obrigado.
      Bom te rever por aqui.

      Você também é show!
      Beijos.

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