Um passeio por reinos fantásticos e criaturas medievais: 'A Deusa de Anília e outras histórias'


O gênero de fantasia é um dos mais procurados pelo universo jovem, e nele, a cadeia de possibilidades em formar e expandir as suas mais extremas e inimagináveis gerações, é enorme. Alguns se aventuram por caminhos já feitos e refeitos por grandes nomes da literatura fantástica mundial, o que talvez seja um erro, pois deixam de lado a probabilidade descomunal de trazer ao mundo, utópicas novidades. Fico extremamente feliz quando leio livros de fantasia que realmente trazem, em sua essência, uma qualidade de se admirar e um conteúdo inovador e bem desenvolvido. E quem é que não fica, não é mesmo? Esses dias, li a querida autora Cláudia Miqueloti e A Deusa de Anília e outras histórias e me deparei com mais uma habilidosa escritora do mundo fantástico e com composições merecedoras de aplausos. Sua escrita, caprichada, deixa a leitura maravilhosa e com aquele sentimento de realmente estarmos fazendo parte da história. Em A Deusa de Anília e outras histórias, há uma suavidade nas narrativas que afeta o leitor, e mesmo com o talhe de elementos clássicos de uma fantasia, como deuses, guerreiros, dragões, elfos, criaturas marítimas, viajantes, reinos e maldições, a autora nos surpreende pela maneira como os coloca em suas histórias e pela forma como conduz cada um desses enredos, que mescla com sensatez, vez ou outra, a nossa realidade com as questões distribuídas em cada novelo utópico. De certa forma, encantei-me com a habilidade da autora e com o contexto original em suas criações.



A Deusa de Anília e outras histórias / Cláudia Miqueloti / 184 páginas / 2015 / Fantasia / COMPRAR

A Deusa de Anília
Um terrível dragão aterroriza a ilha. Krisna Rimeriano precisará de toda sua determinação e coragem para salvar sua amada ilha e conquistar o coração do valente Negro.

A Maldição de Gohran
A cidadela de Manarga vive sob uma maldição imposta pelo temível dragão Gohran. O jovem Menetto e seus companheiros precisam ser bem sucedidos para que Manarga não desapareça.

Mielim e a Harpa Encantada
A harpa dourada foi roubada, debaixo das orelhas pontudas dos Elfos de Lothuen. Bravos guerreiros saíram no encalço do ladrão.

O inferno de Razhenda
O Reino de Razhenda foi devastado por Cormedhor de Austrúcia, um mago ensandecido, que vem se utilizando de seres humanos como cobaias para suas experiências cruéis.

Tremaría e o Gigante da Montanha de Gelo
Uma terrível e monumental criatura, está aterrorizando os viajantes que precisam cruzar a Montanha do Vento Cortante. Kági, Dovan, Armando, Sáfio Liso e a doce barda Jocelyn precisam urgentemente de um trabalho, pois seus bolsos estão vazios. 



Gostei demais da experiência de ler Cláudia Miqueloti, que possui uma escrita dinâmica e maviosa. A autora, apesar de realmente ter em si a substância natural do mundo da fantasia e exprimir isso de forma grandiosa, se difere de outros autores quando descomplica o texto e contexto ao exteriorizar seus enredos. É fácil compreender os cinco contos em sua obra — que não são interligados e proporciona uma interação ainda melhor com o leitor. O livro cresce a cada página. O leitor parece estar subindo uma bela árvore enquanto vai conhecendo suas belezas e desdobrando os novelos. As características mais notadas são da época medieval com ingredientes próprios, como nos jogos de RPG, e Cláudia, como uma boa conhecedora do mundo RPG não poderia se sair melhor. 

As composições de Cláudia Miqueloti não se limitam só ao mundo (fantástico) e mesmo que a autora não tenha tido a intenção de fazer um ótimo embate do cenário moderno com o medieval, isso acontece, pois os contos não são tão curtos e puderam ser bem delineados. Os assuntos se amplificam e vão além das triviais lendas de fantasia e tornam-se, em certos momentos, surpreendentes, como em A Deusa de Anília, onde uma reflexão rápida sobre a poluição ambiental e catástrofes contorna o enredo: ''A enxurrada invadia as ruas sem o menor respeito por quem passava esbaforido, tentando salvar seus pertences... O esgoto, rudimentar, veio à tona espalhando dejetos, lixo e expulsando roedores, além de outras criaturas das profundezas, para o caos das ruas de Anília...''.

Além disso, alguns dos subtítulos dos contos se expressam por si sós e transmitem ao leitor reflexões importantes, como luta e coragem, sacrifício diante às dificuldades, decisões, traições e descobertas, renúncias e esperança. Mas não para por aí, gostei muito das representações da própria fantasia em si, que exibe exímios seres e habitats estranhos, desafiadores e conquistadores, como a floresta dos centauros, o desfiladeiro da caveira e a torre de Pendólia. ''Sem pensar duas vezes corri para a torre. Tive que enfrentar os guardas que protegiam o portão da torre... Nem tive tempo para me spantar... apenas sorri quando vi a luz ofuscante que irradiava de Aniquilação.''

Senti-me, de repente, dentro de histórias clássicas da literatura fantástica, porém com pitadas de originalidade que fazem a diferença. Apesar de os personagens não serem mais aprofundados em seus aspectos físicos e individualidades, a boa leitura é garantida. 

Quando pensei que já estava tudo mais do que bem encaminhado, eis que a autora me surpreende ainda mais com o último conto — o meu preferido —, remetendo o leitor a um cenário belíssimo, de grandes proporções e com uma narrativa ainda mais harmoniosa, segura e sedutora. Certamente ela fecha o livro com chave de ouro e teve sucesso ao escolher 'Tremaría e o gigante da montanha de gelo' para encerrar a obra. Sempre achei muito interessante histórias onde o mar é a ambiência focada, e seus mais recônditos segredos e criaturas, a crista do mistério. Neste conto, senti algo mais diferenciado, com ares mais sombrios e cheios de brumas, mas novamente, com a originalidade da autora na criação. Além disso, a autora ainda confronta uma das realidades atuais da nossa sociedade e gera uma rápida reflexão nos leitores. Como já anuncia na premissa, Kági, Dovan, Armando, Sáfio Liso e a doce barda Jocelyn precisam urgentemente de um trabalho, pois seus bolsos estão vazios. Verdade seja dita, Cláudia Miqueloti me presenteou com um momento de terror medieval marítimo antes de encerrar minha leitura. ''— Agora ouçam com atenção esse velho Tubarão do Mar que vos fala humildemente. Nunca! Mas nunquinha mesmo pensem em ir para o sul. Existem coisas naquela parte do continente que deveriam ficar enterradas, ou deixar pra lá, o que se faz com o que devemos esquecer... Fiquei sabendo que enviaram uma caravana para aquelas bandas... É um lugar assombrado, bem se sabe... ninguém que foi até lá voltou para contar o que viu. Acho que um monstro os engoliu.''

2 comentários:

  1. A ilustração da capa desse livro é belíssima. Histórias fantasiosas são sempre atrativas para se ler de vez em quando, para fugirmos mesmo que por um curto período da realidade em que vivemos. A fantasia cresceu assustadoramente nos últimos anos, cada vez mais, novos leitores aderem a esse gênero literário. Quanto a sua resenha, como de costume tá impecável. A análise nos mostra de forma clara o que o leitor encontrará na obra, tu faz isso com muita precisão. Abraços!

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    Respostas
    1. Luciano, a capa é realmente show!!!

      Quanto a história, está belíssima oi muito bem trabalhada. Ler fantasias, de vez em quando, é bom mesmo. Miqueloti merece reconhecimento pelo talento.

      Abraços.

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