Não ria, não desafie, não se iluda. ''Respeite o Medo'', obra realista de Ana Cristina Soares


E aí, vai encarar? Essa é a frase que vou usar pra marcar o livro fantástico da querida autora Ana Cristina Soares que solicitei em parceria com a Chiado Editora para leitura e apresentação aqui no Marcas Literárias. Tenho que confessar que a obra ''Respeite o Medo'' já me passava uma boa impressão desde que li a sua sinopse, motivo pelo qual escolhi o livro na parceria, mas, incrivelmente, ao tatear as folhas e devorar sem pena e rapidamente cada uma das histórias realistas e dramáticas que preenchem o núcleo hediondo mas refletido do livro, surpreendi-me por inteiro ao quebrar, de uma forma super agradável, as boas e anteriores expectativas. Adoro quando mexem com o meu psicológico e sacodem as minhas ideologias mundanas. A autora consegue, de forma clara, rápida, inteligente e atraente, induzir o leitor às narrações e episódios até comuns do cotidiano daqueles que, em inesperados instantes, se deparam com o inimigo da coragem, o tal do medo, que faz bambear as pernas, congelar a espinha e, às vezes, agir de maneira controvérsia ao caráter do próprio indivíduo. Para o leitor, uma pergunta o cerca a todo momento, pois sem sobra de dúvidas, como o título já sugere, o estado afetivo suscitado pela consciência do perigo ou que, ao contrário, suscita essa consciência — o medo — é o ingrediente fulcral do enredo e permanece espetado a todo o tempo nas personagens, que em confronto, às vezes, consigo mesmo, aderem os papéis de vilões e consagram-se ao concluir seus atos de impermista valentia. Perguntei-me algumas vezes: 'Meu Deus, o que eu seria capaz de fazer se esse estado suscitado por minha consciência me domina-se por completo!?' e realmente consegui achar algumas respostas não muito agradáveis. Pois é, enquanto eu fico por aqui tentando aceitar a minha hipócrita coragem, respeite o medo, caro amigo, caso contrário ele poderá conturbar todo o teu psicológico e alterar algumas pré-definições que o teu 'eu' esboçou a vida toda.


Respeite o Medo / Ana Cristina Soares / 164 páginas / 2016 / Ficção / COMPRAR


O cara gente boa namora uma vadia, acha que ela é uma fofinha, mas está enganado. O outro namora uma princesa e nem percebe. A víbora tenta dar um golpe na gordinha-sem-graça e se dá mal, mas nem tanto. Numa festa cheia de maluco-beleza e muitas risadas, as coisas saem totalmente do controle. Não é engraçado. E o pavor inominável, mas antigo que o mundo, espera o tempo que for para vencer. Raiva, cobiça e inveja. Dome-as, controle-as ou elas vão controlar você. Ressentimento. Fúria. Preguiça. São horríveis, impublicáveis e inconfessáveis mas você também já sentiu. Mas pode continuar fingindo que não. Mas, o medo… o Medo é diferente. O Medo é como a Morte. Frio e implacável. E por isso mesmo, incrivelmente belo. Não ria, não desafie, não se iluda.  Respeite o medo.


A leitura do livro se dá de maneira completamente formidável, visto que os contos são, em sua maioria curtos e resolutos — isto mesmo, contos! O livro é composto por vinte contos não interligados, porém que traduzem a mesma linguagem, às vezes pesada e cruel, às vezes macia e sarcástica. Como ponto de partida, encontramos um pano de fundo até clichê no ambiente literário, mas a proporção que a autora alcança com o tema da psicologia nas suas composições é realmente proveitosa. A começar pela escolha timbrada do título. Respeito e medo, de algum modo, podem ser encarados até como sinônimos. Desta forma, temos uma espécie de figura de linguagem muito interessante para robustecer ambas as palavras; a subordinação pelo próprio medo, ou em outras palavras, o medo do próprio medo. Essa jogada inicial feita pela autora é uma ideia fabulosa que gera no leitor mais atento um misto de curiosidade progressiva. Além disso, a sua habilidade com a escrita é descoberta de imediato, quando, de repente, o leitor já se sente à vontade com os acontecimentos mais inesperados das narrativas. 

A enfatização dos lados psicológicos dos comportamentos e das motivações individuais de cada personagem é expressada brilhantemente. O leitor se vê em ambientes e contextos corriqueiros que nem sempre são observados no dia a dia. Principalmente os seus desfechos. É realmente incomum imaginar os fundamentos — propositais ou não — adquiridos pelos indivíduos em suas histórias. Mas Ana Cristina o faz com muita 'cara de pau', sem medo algum de relatar os medos e desejos de suas criações. O instinto humano fala mais alto durante os casos e prevalece quando motivado pelo medo, a exemplo dele em forma real — como o medo da morte — ou em forma emocional — o ciúme. 

''Algum tempo depois, Cecília dormia ao lado do marido, quando ouviu a voz aveludada da Morte. Teve um arrepio de medo, mas a Morte acalmou-a...''

Na maioria dos contos — que apresentam a imagem feminina como protagonistas —, a relação dos conflitos apresentados se depara com circunstâncias onde os relacionamentos são o ponto de partida para determinados desenlaces. Às vezes, resquícios do mundo sobrenatural também servem como modelo para a apresentação do tema proposto pela autora, como o conto homogêneo, onde ocorrências anormais deprimem Helena: ''...Se encolhia mais na cama, até que sentiu de forma inequívoca uma força puxando seu lençol. Isso também nunca tinha acontecido: 'aquilo' nunca se manifestara de forma tão concreta... Enlouqueceu instantaneamente e ninguém jamais sobe o porquê".

Em diversos momentos, peguei-me a imaginar os diversos caminhos que o medo reserva para cada um de nós. Chegou a ser assustadora a quantidade de possibilidades encontradas para solucionar alguns conflitos interiores. O psicológico, quando não administrado muito bem, é capaz de provocar e formar no personagem, comportamentos e atributos impremeditáveis e, muitas vezes, incompreensíveis. A apresentação da autora é apenas uma amostra da realidade que nos cerca a todo o tempo — tanto no âmbito físico, quanto no metafísico —, e que reflete quase sempre os piores momentos do desprezo desse estado sentido e tido por todos. Percebe-se durante as leituras que o medo é também um entrave de proteção. Algumas dessas condições são passageiras, outras mais persistentes, entretanto quando essa barreira é quebrada, o inimaginável pode acontecer.

A morte também é referência gritante nas narrativas de Ana Cristina, e usada algumas vezes como punição inicial para as personagens. Além disso, alguns tópicos já relacionados na premissa, como os relacionamentos, a raiva, a cobiça e a inveja estão presentes na obra e fazem parte do desenvolvimento do enredo. Acredito que a mensagem de alerta para os leitores é passada com objetividade pela autora que, certamente além de se divertir ao escrever o livro, teve a inteligência de expor temáticas que circulam continuamente no meio da sociedade.

''... Tia Chica proclamava que escondia o filho para protegê-lo, mas na verdade misturado com o amor, havia também medo, vergonha e culpa... A adrenalina misturada ao álcool do lenço já seriam suficientes para promover uma revolução na corrente sanguínea da tia, mas Tatiane não queria se arriscar. Depois que aplicou a injeção, jogou a mochila no chão e esperou alguns segundos para a tia acordar...''

Num todo, o livro é maravilhoso mas confesso que a ordem dos contos poderia ter sido melhor construída, por mais que eles não sejam interligados, há momentos que o ápice de apreciação é quebrado por motivo dessa escolha causando no leitor um certo desencanto. A ortografia também poderia ter sido melhor revisada pela Chiado Editora, pois há erros bobos que certamente desagradam uma parcela dos leitores. Entretanto, a satisfação em conhecer a escrita fácil da querida Ana Cristina Soares e sua obra bastante expressiva é enorme. Um livro que recomendo sem receio e que me agradou por demais.

6 comentários:


  1. Medo e amor, sentimentos tão comuns e ao mesmo tempo tão diferentes. Contudo não é possível deixar de sentí-los pelo menos uma vez em nossa existência terrena. Não é nada fácil encarar o que se teme, no entanto é necessário, para evolução. Quanto a resenha está muito boa, e o livro parece mesmo muito atraente e, apesar dos pontos negativos citados, me parece que vale a pena lê-lo. Abraços!

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    1. Valeu Luciano, ótimo complemento em tuas palavras. Gostei por demais.

      Sobre o livro, recomendo mesmo!

      abraço!

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  2. Medo! Confesso que em alguns momentos curto esse sentimento. Na verdade quando criança não sentimos medo... Ele vai construindo.. E é justamente o medo que nos mantém vivos. A partir da morte podemos notar seu poder sobre o homem.. É através dela que o homem, mulher percebem suas fraquezas e rever de alguma forma suas ações.. Pois muitos acrediram veemente no depois dela... E os que não acreditam de certo crer numa vida e plena por aqui mesmo. Com isso, a vida e morte são duas coisa que nos iguala... E com ela o medo.. Que nos persegue e que também mos mantém de pé... No entanto há aquele medo que nos aprisiona psicologicamente e consequentemente fisicamente. O que de certo modo é importante rever e dosar tal medo Resenha espetacular. Parabéns! 👏

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    1. Obrigado pelo seu complemento, de grande valia também, querida.

      Leia o livro quando puder, é muito interessante a forma realística como a autora nos apresenta as histórias.

      Beijos.

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  3. Livro interessante gostei. "Medo" quem nunca sentiu? Adorei sua resenha.Parabéns!!!

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    1. Oi Luh, obrigado pela visita, surpresa, hein!?

      Grato pelo elogio.

      Beijos.

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