Um anti-herói saudosista e decepcionado: 'Costelas de Heitor Batalha', leitura reflexiva e valiosa


'Costelas de Heitor Batalha - Os prazeres e as dores de um anti-herói', livro escrito pelo jornalista Joaquim Maria Botelho, é sem dúvida um dos melhores livros que já li até o momento, e retoma os ares da infância e adolescência, trazendo papéis coerentes e também invertidos nos pensamentos e ações do protagonista, que ressuscita pessoas de sua memória enquanto, num sofá, sente as dores infames de um, talvez, equívoco! As personagens, que também acabam virando memórias do próprio leitor, relembram tempos onde as dúvidas eram parte de um conjunto inocente e saudável. Os aprendizados, as descobertas e todas as decepções dessas fases tão importantes e inesquecíveis de cada indivíduo, estão no âmbito apresentado nesse maravilhoso romance de estreia do autor, que consegue envolver com uma escrita descomplicada, deslumbrante e cheia de mistério desde o primeiro capítulo.


Costelas de Heitor Batalha / Joaqim Maria Botelho / 272 páginas / 2014 / Ficção, romance /


Esse é um livro que eu nem gostaria de indicar — pois tenho ciúme das minhas melhores leituras e gosto de devorá-las meio que sozinho, pelo menos no início —, pra que eu possa viajar no tempo e me fazer parte de todo o tautócrono que o autor fielmente deslumbra em suas rememorações. Essa exposição das épocas de Heitor Batalha muito se adaptam a realidade dos tempos atuais — pelo menos para os que com ele, se identificarem prontamente. A representação da vida num estado verboso e, às vezes, excruciante, atrai os olhares dos mais apaixonados e saudosistas leitores, que refletem rapidamente sobre os episódios e se jogam nesse cubo de experiências e aprendizados do amor. O suspense, lançado desde o primeiro momento, induz a curiosidade até o último folhear da página final.

O pensamento vagava sem lógica. Lembranças emergiam, desordenadas. Tinha encontrado uma posição, no sofá. A dor persistia, latejante. Acostumara-se a ela. Incomodava, naquele momento, uma pontinha da etiqueta da camisa nova. Não conseguia mover o corpo e por isso foi obrigado a aguentar, como o algemado acometido de coceira no nariz. Procurou desviar a atenção do incômodo e o pensamento passeou de novo, de etiquetas para rótulos. Engraçado, pensou, como as pessoas pregam rótulos em si mesmas. Parecem desesperadas para dizer, a todo mundo, quem são. 

As perdas são marcas profundas no protagonista, que acaba deixando que a vida lhe faça acostumar a elas, de uma maneira muito particular. É evidente no romance, assim como na vida real, o confronto do próprio orgulho com a necessidade de se ter um modelo, a procura da imagem de um herói. Essa procura, às vezes, dói, e remói o centro do próprio ego quando não desenlaçada da maneira esperada. Aí fica a marca dos reflexos e insucessos juvenis em meio as surpresas da vida nas fases seguintes. Dá-se, ao término do romance, o valor devido a todos os prazeres e dores da vida desse anti-herói, afinal, cada um de nós leva nas costelas uma pitadinha de batalha, uma porção de desilusões e um pedacinho do ser "anti-herói" que tanto nos completa. "As pessoas mostram o verdadeiro caráter nos momentos de adversidade" e o jovem Heitor não é exceção em momento algum. O anti-herói é o modelo comum da realidade encontrado em tantas cidades do nosso grande país, que concentra também as boas e diversas memorações da iniciação da vida. As alcunhas, referências comuns em nossa infância, pintam um quadro da beleza da época para recolocar ao canto da boca, o velho sorriso marcante. Quem aí nunca teve um apelido quando criança? Assim como também, as invariáveis brincadeiras de médico entre meninos e meninas, as idiotas piadas em momentos inoportunos, as esquisitas manias e a disputa — mesmo que essa fizesse parte apenas da sua cabeça — pela garota mais bonita da escola, ou quem sabe, pelas garotas, assim mesmo, no plural... Eis que revejo ao ler 'Costelas de Heitor Batalha' todos os ápices da minha meninice e juventude.

O passeio pela nova experiência — o sexo — e o apalpar na mulher amada, é um manifesto sentimental marcante, assim como a sua maior decepção, que gera em si, as dores de suas costelas, instantes inevitáveis — talvez evitáveis — do grande protagonista. O seu crescimento não se dá por intermédio de suas ações, mas por seus laços infindáveis ao passado, aspecto que já o torna um inevitável herói, mesmo que ele, por vezes, se questiona-se entre ser um incompetente social ou um doente emocional, pensamento justo para quem sofre suas decepções amorosas, visto que ''há circunstâncias que podem ser suficientes para fazer as pessoas perderem a fé no amor''. Mas, por outro lado, a evolução no ser humano se faz necessária a cada dia, principalmente nos dias atuais, onde vivemos a pura superficialidade, e para isso, o talentoso autor marca momentos especiais para o querido Heitor Batalha, que por diversas vezes lança ao leitor possíveis traços do Botelho que nos escreve. ''O sinal mais eloquente de amadurecimento é quando a gente decide ir deixando coisas pelo caminho''.

Os aforismos populares também marcam presença no romance, atribuído com uma escrita leve, que mesmo anexando assuntos mais sérios e pertinentes como traços de personalidade, dúvidas familiares e desprazeres amorosos, revela os sabores mais gostosos do passado e a formidável capacidade mental do ser humano. Ao término, fica a dúvida e vale a interpretação do genuíno leitor, que pode até se surpreender com o remate. Não chega a ser um ar de "solidão" e nostalgia que acompanha os pensamentos de Heitor Batalha, mas a impressão que se ganha durante a leitura fácil e magnética é que a proporção de intermúndio interior do jovem se expande enquanto ele se afoga em virtude das dores de um episódio. Como é louca essa vida... tudo acontece como uma despedida, e as amizades são desafogadas de seus mais intensos sonhos.

Ao autor e à Editora Évora, o meu muito obrigado pelo prazer inenarrável em ler e conhecer essa magnificência literária, direta aos mais jovens, público que tanto precisa de incentivo à leitura, desde cedo. A estes, a recomendação é mais que necessária, torna-se um alto benefício ao conhecimento, um estímulo para a vida. Como aprendizado, o jovem Heitor nos diz indiretamente que separar-se daquilo que se ama é mesmo doloroso, entretanto, fundamental para a nossa gradação. ''Toda separação é uma violência... Acordou ensopado de suor. Não entendia bem se vivia o pesadelo. A realidade tinha um som assustador''.

4 comentários:

  1. Resenha sensacional caro Leonardo! Sensacional também parece ser esse livro, a sua empolgação na análise deixa explícito o quão prazerosa é a leitura. Abraços!!

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    1. Valeu Luciano, mais uma vez marcando presença por aqui.

      Abraço!

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  2. Que resenha linda, as palavras usadas, a forma que construira o texto o torna grandioso. Gosto por demais da forma que resenhas, mas essa se aproximou mas de minha pessoa, pois acredito que resenhar um livro é isso, falar do que sentiu, os ensinamos que o livro nos apresenta e isso você fez de modo brilhante. Se rolou um ciúmes com o livro é que este de certo é muito bom. Parabéns pessoa!

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    1. Obrigado Geh, realmente o pessoal tem a preferência por resenhas pessoais. acho que resenhar não é isso, a resenha em si tem fundamentos analíticos. Este artigo soa mais como uma opinião expressiva pós-leitura, o que de certa forma facilita o entendimento daqueles que vierem a ler. Gosto de ser imparcial, mas desta vez quis diferenciar um pouquinho das demais apresentações.

      Obrigado pela visita.

      Bjs!

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