Encontre-se em meio ao seu passado. 'Resquícios de Nós Mesmos' sugere o sobrenatural diante de um perfeito suspense


O mundo sobrenatural sempre levanta bastantes questionamentos aos mais incrédulos que, quando precisam, tentam buscar na ciência as respostas mais adequadas para tais indagações. Este confronto entre a religião e a ciência, — o estado abstrato da matéria contra a materialização, de fato, do corpo —, é bem antigo. Embora, na obra destacada neste artigo, o autor levante possíveis questões sobre o mundo paralelo e suas forças, o conteúdo aparece de forma bem apresentada e argumentada diante de ocorrências dignas de roteiros cinematográficos. Em outras palavras, o que o leitor encontra em ''Resquícios de Nós Mesmos'' são consequências de escolhas e atos passados que culminam em uma investigação ampla e aprimorada criada por Saulo Moreira. Como primeiras impressões, o livro já conquista. A facilidade com que o autor expressa os diálogos do incrível prefácio é capaz de deixar o leitor muito mais à vontade e devotado à leitura. O conjunto de suspense, terror, psicologia e socialização apresentado, assimila fatores escondidos nas personagens, levando, não somente eles, mas também os próprios leitores, a jornadearem através de seus conceitos e conflitos para que se interpretem. 'Resquícios de Nós Mesmos' ratifica o impacto do título e lança os leitores em um ciclo misterioso, intenso e fantasmagórico. Vale lembrar que o livro está disponível na Amazon e com leitura gratuita para o Kindle Unlimited.


Resquícios de Nós Mesmos / Saulo Moreira / 311 páginas / 2016 / Policial /


A personalidade é formada por traços genéticos, histórico pessoal de convivência e pelas nossas crenças. Como você se sentiria se acordasse em uma cama de hospital, aos dezessete anos de idade, com os pais já falecidos e sem se lembrar nada sobre você mesmo? Essa é a história do Detetive Sandro, que hoje, aos trinta anos de idade, não tem certeza de quem realmente é ou das pessoas em quem pode confiar. Nerd e desanimado, passa a maior parte do seu tempo livre jogando no console ou no celular. Inteligente, também gosta de quebra cabeças como sudoku. Seu maior problema é a falta de vontade em se enturmar ou socializar. Mesmo sendo um excelente profissional, tem que aturar as cobranças exageradas do Delegado José de Arimatéia e a petulância do Detetive Alisson, pra piorar, esses dois são pai e filho. Ateu e confiante no método científico, terá a rotina e a própria existência abalada ao ter que desvendar um assassinato envolvendo a filha do delegado e, pior ainda, uma das testemunhas jura ter visto uma luz fantasmagórica.



''Eu não tenho um problema psicológico, eu tenho uma maldição que destruiu minha vida e fez minha personalidade em pedaços já faz treze anos e por mais que eu procure ajuda esta merda nunca melhora de verdade.''

O suspense apresentado por Saulo Moreira se passa no interior de Minas Gerais e, além de entreter os leitores, traz verídicos resquícios de personalidades fiéis ao meio social contemporâneo. Os leitores são apresentados a personagens bem definidos — alguns comuns e outros peculiares —, que, ao decorrer, acabam provando os seus motivos para tais ações e comportamentos, justos ou não. O terreno das atividades é, no geral, condizente ao modelo proposto pelo autor. Decerto, há como sentir-se no meio de uma série policial cinematográfica sim, enquanto o autor vai ditando em quotes simultâneos os momentos antecedentes a um crime local que abala as famílias envolvidas e os moradores do bairro. A todo instante o leitor é colocado à frente de novos personagens — adolescentes, crianças, adultos, velhos — necessários para o entendimento de todo o eixo da narrativa. A substanciabilidade cultural e social que as personagens apresentam em suas individualidades não alteram o cerne dos processos mentais e comportamentais em suas interações com o âmbito físico do meio. 

''Minha filha está lá fora e preciso que você descubra tudo que aconteceu aqui e defina o que ela estava fazendo em uma casa abandonada e porque tinha tantos garotos em volta dela.''

Logo, um amontoado de segredos, rituais, experiências sobrenaturais e descobertas vêm à tona e superaquecem a história. O personagem central tem sua filosofia de vida pautada no raciocínio e na razão e, por este motivo, cria um confronto consigo mesmo quando percebe que o caso toma rumos diferentes do que imagina. Ações egoístas, esquisitas, suspeitosas e equivocadas são praticadas a quase todo o instante pelo grupo de personalidades apresentadas no enredo, tornando-o ainda mais realista. Não se percebe, a nenhum momento, a presença do herói perfeitinho que debilite a forma verossímil com que a história é exposta. 

''De súbito todos os seus pensamentos foram interrompidos, sentiu uma mão empurrando seu ombro, começou a se desequilibrar e se arrepiou todo tendo certeza de que cairia. Então a mesma mão que o empurrou agarrou forte amassando sua blusa e o puxou para trás. A gola apertou um pouco e incomodou tanto quanto o susto.''

O enredo começa a formar a sua essência logo cedo, quando o passado do protagonista começa a ser revirado, então tais episódios geram novas ideias aos leitores. As personalidades são pontos importantes do enredo, e, no condizente ao verdadeiro foco da trama, é certeiro afirmar que Saulo Moreira acerta em cheio na proposta. Essa 'parede do tempo' é defrontada por todos os personagens centrais e traz de volta um passado já esquecido há tempos. É de valia afirmar que o autor não se apressa em contar cada passo de seus personagens e que os diálogos são magníficos; sem dúvida, um dos pontos mais fortes da obra, pois não são mortos e incoerentes, pelo contrário, a alternância dos fatores complementares dos indivíduos e a troca de ideias entre eles são sensacionais, simplificando, há veracidade e harmonia entre diálogo, elementos e contexto.

Ainda falando sobre os elementos expostos durante a trama, há como definir que, a presença dos adolescentes na obra é a imagem perfeita dos adultos que se formaram na cidadela. Nesse ponto também há como perceber a representação dos vestígios deixados pelo caminho a fim de inteirar o personagem central no redescobrimento do seu próprio 'eu', como um espelho colocado à sua frente para enxergar o passado.

''Há uns vinte anos era a turma de vocês que sempre vinha para esta rua e ficava explorando a casa. Depois tudo parou e ninguém mais vinha por aqui. Então há poucos anos eles começaram a vir, a diaba loira e os dois miquinhos dela. Eles são piores, tudo hoje em dia é pior. Fazem mais barulho e aprontam mais. Ela já quebrou luz de poste só para deixar tudo mais escuro, já brigou com outros meninos por aí, mas sendo filha de quem é…''

O atavismo presente na obra retoma valores sociais e familiares importantes para o modelo contemporâneo da família. No contexto geral, o suspense sobrenatural é o ponto de partida para uma busca não somente do assassino, seja ele material ou imaterial, mas pela totalidade do ser individual e social. Todo o processo investigativo é desenvolvido de maneira sublime. As articulações e motivações mencionadas são coesivas e deixam a trama altamente eloquente. As 311 páginas do livro podem ser devoradas em questões de horas, pois Saulo Moreira possui uma escrita determinante, aprimorada, atraente e bem caracterizada pelo uso preciso dos detalhes. Quanto a busca incessante pelo assassino, garanto que o autor surpreende legal.

''Como o lado direito do lote onde ocorreu o crime era delimitado pelo ribeirão, optou por começar pela casa que vizinhava pela esquerda. Uma construção antiga, mais simples que o casarão mal-assombrado, mas que seguia o mesmo padrão dele. Tinha uma entrada que nos dias de hoje é praticamente inconcebível, sem muros frontais, portão ou qualquer coisa que protegesse o acesso principal da casa. Somente uma pequena escada de três degraus que avançava sobre o passeio, fazia-se de obstáculo entre a morada e a rua. Era singela e bonita, como coisas antigas podem ser.''

A sensação a cada capítulo lido é de pura excitação. A forma que o autor conduz todo o desenvolvimento do suspense deixará, certamente, o leitor apreensivo, a ponto de conversar literalmente com os personagens durante a leitura. Em minha experiência, peguei-me falando coisas do tipo: ''Cuidado cara, ele pode ser um suspeito!'', ''Não faça isso, você vai se dar mal!'', ''Ei Sandro, presta atenção, acorde!!!''. Quando essa interação despretensiosa acontece, pode-se dizer que o objetivo do autor está alcançado, pois mescla todas as matérias presentes durante a leitura — leitor, obra e autor. Lembrando que não é pelo gênero ou gosto pessoal que se deve conceituar um livro, sim por sua qualidade.

No espaço apresentado por Saulo, encontra-se, entre as personalidades, um desmemoriado, um transgressor, um escotofóbico e a presença de pessoalidades inusitadas que, até certo ponto, possivelmente levará os leitores a diversos questionamentos. Falando em indagações, a mediunidade é parte temática de ''Resquícios de Nós Mesmos''. Invocações de seres de outros mundos, às vezes — ou sempre —, causam desconforto nas pessoas, isso é bem verdade, mas acredita-se que, acima das barreiras desse embaraço encontra-se a curiosidade. O ar sombrio e desafiador do suspense fica por conta desta tônica inserida ao enredo, que por sinal, não poderia faltar em uma obra de Saulo Moreira, autor que trabalha muito bem com esse contexto. É aí que surge uma segunda conotação — e não menos importante — para o título da obra e seu propósito, onde os vestígios lembram diretamente aparições fantasmagóricas daqueles que se foram mas deixaram missões à fazer no mundo real. Quanto a isso, o autor gera uma quebra de crença quase forçada sob alguns de seus personagens, e isso é ótimo.

''Temos três tipos de manifestações fantasmagóricas: entidades, distorções e impressões. Das três as mais comuns são as impressões. São fantasmas não conscientes, eles revivem algo que foi muito importante para eles. A morte trágica, um trauma muito forte, sempre algo ruim. Eles não interagem com o meio, não podem ser evocados, somente observados. Uma pessoa com dom mediúnico muito forte pode se concentrar e ver o fantasma refazendo algo até o fim dos tempos. O que li é que este tipo de fantasma é só um resíduo da pessoa que partiu, provavelmente ela está em um plano intermediário e um pedaço dela ficou preso aqui.''

Enfim, quem somos? No que acreditamos? O que fazemos? Para que vivemos? Essas questões certamente surgirão nos leitores durante a leitura de ''Resquícios de Nós Mesmos'', enredo que marca pela capacidade de sugestionar os fragmentos mais escondidos do leitor e personagens, a ponto de fazê-los encarar suas mais terríveis lembranças escondidas no passado, e suas ideologias, deixando-os defronte a um outro alguém que em meados de sua existência perdeu-se ou bloqueou-se por alguns motivos. Como disse Sigmund Freud, ''não somos apenas o que pensamos ser. Somos mais: somos também o que lembramos e aquilo de que nos esquecemos; somos as palavras que trocamos, os enganos que cometemos, os impulsos a que cedemos, sem querer''.

Que trama bem tecida! Mais um livro para recomendar sem dúvida alguma. ''Resquícios de Nós Mesmos'' manifesta a força do mundo extranatural mediante a casos misteriosos que envolvem as personagens durante todo o processo de desencadeamento. As lacunas, que de início se encontram ainda vazias, se completam perfeitamente no desenlace. O autor Saulo Moreira demonstrou mais uma vez suas acentuadas habilidades literárias e garante ao leitor uma ótima leitura, um excelente enredo e muitas surpresas com seus personagens extremamente bem representados e enredados. Garantam essa leitura! O livro está disponível na Amazon e pode ser lido gratuitamente pelo Kindle Unlimited.

''Nossa personalidade é um fruto das nossas experiências, das lembranças em si... Levamos essa vida, pois queremos transcender os prazeres comuns e atingir um ápice inimaginável por pessoas em geral, mas alcançável usando-se as técnicas corretas.''


10 comentários:


  1. Uau! Muito boa a resenha. Esse ar sobrenatural que o livro possui, juntamente com a parte investigativa, o tornam muito instigante. Parece ser uma obra maravilhosamente bem escrita, e de uma trama muito rica em detalhes e enigmas. Gosto muito de obras assim. Parabéns ao autor pelo belíssimo opúsculo. Abraços!

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    1. Valeu Luciano, o livro faz o teu gosto sim. Quando o comprar e lê-lo, me fale o que achou. Os enigmas e surpresas da obra são realmente fantásticos.

      Abraço!

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  2. Quando a resenha é tão bem feita e o leitor compreendeu tão bem a essência do livro que dá vontade de pagar uma cerveja pro resenhista e ficar a noite toda debatendo a trama.

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    1. Ah, obrigado caro autor, que tal debatermos num barzinho próximo à casa mal-assombrada?

      O parabenizo novamente por essa incrível composição. Por isso eu vivo dizendo quando me questionam sobre comparações com os internacionais, que nós, brasileiros, não ficamos devendo em nada para os autores estrangeiros. Você é um exemplo disso.

      Abraços!

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  3. Oi
    eu gosto de um bom suspense e pelo que li na sua resenha parece, sempre com resenhas que exporão a fundo as histórias e muito bem escrito.

    momentocrivelli.blogspot.com

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    1. Olá Denise, grato pelos elogios à resenha.

      O livro é mesmo ótimo, e o recomendo.

      Beijos.

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  4. Tenho uma atração por livros assim, já vou caçá-lo e tentar ler.
    Pela sua resenha (que achei ótima), me encantei com o livro!
    Beijos
    http://onlypoison1.blogspot.com.br/

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    1. Oi Maria, tudo bem?

      Grato pelo elogio. Espero que a leitura lhe agrade tanto quanto a mim.


      Obrigado pela visita.

      Beijos

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  5. Gostei muito da resenha, porque eu gosto demais de suspense, ainda mais em livros.
    E se como você disse a cada capítulo lido vai dando apreensão e curiosidade, fiquei muito interessada.
    Gosto demais do gênero, ainda mais se for literatura nacional.
    <3

    Beijoooos

    www.casosacasoselivros.com

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    1. Grato pelo elogio, Teca.

      A leitura é excelente, e tratando-se de um nacional, certamente também me agrada mais ainda tê-lo em meu acervo.

      Beijos.

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