Relembre 'Til', clássico nacional de José de Alencar


A bela apresentação nacional em ''Til'', publicado em 1972, obra do cearense José de Alencar, é um enredo que se passa no interior da cidade de São Paulo entre os anos de 1826 e 1846, onde o autor, ainda jovem, quinhoava a retratação de suas personagens e ambientação típica do século XIX, período em que no Rio de Janeiro era lançado o discurso que manifestava a necessidade da continuação do comércio da escravatura por circunstâncias imperiosas, que difundiriam problemas de crescimento econômico e de soberania política. Em meio a todo esse contexto imperial do século narrado, o autor defende seu ponto de vista político e social apontando em seu romance diversas incoerências do Brasil refletido. 


Til / José de Alencar / 210 páginas / 1972 / 2015 / Ciranda Cultural / Romance

Berta é uma moça humilde que mora perto da Fazenda das Palmas. Ela ajuda a todos que estão à sua volta e cria um laço forte de amizade com Miguel, Linda e Afonso. Mas a história do seu nascimento esconde mistérios que envolvem muitas pessoas, dentre elas o temível Jão Fera, um capanga da região. 


A cultura das gigantes selvas brasileiras e fazendas distribuídas por quase todos os locais regidos por nobres senhores feudais faz parte do conteúdo histórico do romance de José de Alencar. Os feitores, senzalas, escravos, engenho de cana, fábrica de café, milharais e outros inventos dão ao leitor a perfeita noção histórica que embeleza a obra, afinal, a história brasileira conta com inúmeros momentos marcantes que por vezes acabam sendo esquecidos em muitas reparações atuais.

O livro é dividido em duas etapas onde o autor, no primeiro período, situa o leitor do que o próprio irá encontrar pelo longo e perfeitamente construído enredo. O embate de culturas e linhagens, como a forte sapiência de povos africanos (direcionada a época dos escravos e seus senhores, arquitetos de um Brasil ainda em processo de fim da escravatura), caracterizam bruscamente o retrato de uma metrópole com resistente influxo rural.

A apresentação das personagens gera o velho encontro com o alto contraste social e cultural. O autor revela com argumentações reais e muito oportunistas, o misto da população nacional, que já desde então passava a caminhar de mãos dadas para uma falsa revolução de valores. No romance, as comparações das personagens a brutos animais selvagens faz o leitor interpretar as deficiências sociais e individuais que Alencar exibe. Resquícios da escravidão são feitos há quase todo o momento no contexto geral do enredo voraz, triangular e verossímil, com forte influência do regionalismo. 

''Algum tempo errou o capanga pela caverna, roçando ou batendo pelos alcantis à semelhança da fera, que palpa os varões do cárcere em que a prenderam. Dera ela tudo para ver-se naquele instante, longe, bem longe dessa furna, onde rugia a paixão indômita; e contudo não se resolvia a fugir.''

Logo, percebe-se a potencialização da figura feminina Til, que determina e sinaliza a força do sexo oposto ao mais forte, apresentada por um narrador não participativo que lhe dá uma forte marca; a ambiguidade. Ora desperta paixões selvagens, ora induz seus admiradores ao céu, com olhares meigos e candura de se velar, mesclados ao saliente movimentar do jovem corpo. O universo dos senhores nobres retratado é contornado por histórias de assuntos ainda mais fortes, como a violência contra a mulher, que acaba gerando algo ao estilo anti-romantismo ao enredo, passando ao leitor o perfeito retrativo da oposição do mundo escravo e do senhoril. As diferenças socioeconômicas trazidas à tona por José de Alencar são importantes para aclarar o estado em que a sociedade ainda se encontrava, tanto culturalmente quanto economicamente. As personagens, apesar de muito marcantes e construídas, são de longe o fator eixo pretendido pelo autor; são apenas fortes e intensos elementos vivos que lutam pela resolução de seus problemas, que ao certo eram os comuns dilemas da sociedade brasileira.

De encontro a este pólo social, os jovens Berta, Afonso, Linda e Miguel desabrocham lindos e fortes laços de amizade que qualificam a beleza juvenil do romance, tal qual que, com a presença da espontaneidade, carrega situações comuns e efêmeras do universo adolescente. A condensação comportamental dos jovens faz o enredo se desenrolar e suaviza questões mais graves como as já citadas. A inflexão do ciúme surge com o estreitar dos laços entre os jovens e deixa ''Til'' ainda mais completo, com a presença de situações e palavreados corriqueiros do mundo jovem da época. 

''Súbito no mato soou um grito bravio, e logo após a voz estranha, ao mesmo tempo saturada de dor e impregnada de sarcasmo, lançou em uma gama estridente este clamor incompreensível:
— Til!... Til!... Til... Oh! Til!...
Linda, quando os olhos de Miguel pousavam-lhe na face, corava e sentia o tímido coração bater apressado... O amor, porém, é contagioso, com especialidade na solidão, onde a alma tem necessidade de uma companheira, e quando de todo a encontra, divide-se ela própria para ser duas: uma, esperança; outra, saudade.''

Jão Fera, o falso antagonista, soturno e ameaçador, forma a triangulação perfeita e fiel dos capangas fazendeiros e transmuda os ideias de Berta e dos demais, assim como dos leitores que os definem como um vilão. Toda a aclimatação fora das fazendas é perfeitamente descrita ao longo da obra e conta com um núcleo precioso para compô-la de forma grandiosa. 

A segunda etapa da obra distribui as respostas para o leitor sobre a história do nascimento de Berta. Neste momento, os conflitos pessoais e a violência nas ações desnivela o conceito de romance e exibe o delírio natural das personagens, tanto quanto os seus mais intensos sentimentos animalescos. O suspense é quebrado para o leitor, que pode neste instante, inteirar-se sobre os verdadeiros vilões da obra. Mais à frente, Alencar volta à bacia do romancismo e descortina os mais atraentes sentimentos guardados nos jovens, que mesmo envoltos ao mundo difícil, preferem dar privilégios ao emocionismo.

''Colhida em sua carreira, a gentil menina estremecia entre os braços de Afonso, como a rola nas mãos do travesso menino; mas não podia estancar o riso brejeiro que, represo nos lábios mimosos, lhe estava borbulhando na covinha das faces e no gesto petulante.''

''Til'' representa, na verdade, a retratação quase muda das personalidades sociais do século narrado em meio aos segredos do mundo dos escravos e senhores. A suavização do romantismo contorna a ênfase dos mistérios das personagens. Não só a escrita clássica e sofisticada do autor, mas o vulgo por antigos costumes, definem o romance como a retratação sublime do modelo rural cheio de contradições sociais. Encontra-se a órfã, a viúva, o valentão fuxiqueiro, a moça mais bonita, o rude bulinador, o capanga facínora, o idiota esquizofrênico, o apaixonado entre tantos outros modelos de uma sociedade contraditória. A meiguice de Berta defronta toda a designação inversa apontada por Alencar, que não apaga da face os contornos de uma mulher evasiva porém forte, anjo e demônio, pureza e sedução. Em sua luta pela descoberta de sua origem, suplanta valores humanos encontrados em razão dos conflitos individuais, fazendo-se a imagem exata do suplício. O romance é para os leitores mais sagazes, que não se desestimulam com falsas definições de uma leitura cansativa. Fica evidente, nesta crítica, que Berta alegra-se em alegrar o próximo, em estender a as mãos em prol de todos que tanto estima. A própria alegria não lhe era uma prioridade. Os vestígios de uma juventude abafada por segredos violentos e obscuros omo os vivenciados na adolescência por Besita, sua mãe, lhe acompanharão por um longo tempo, fazendo-a se limitar ao seu pequeno universo. Como a própria protagonista dita pelos lábios meigos e sedutores: ''Meu lugar é aqui, onde todos sofrem!''. ''Til'' é sem duvida o romance do idiota, da louca e do facínora remido; e quem dera que de lá para cá, soubessem os sucessores de Alencar, ousar e apresentar realidades tão apaixonantes quanto neste romance.

''O mesmo é perguntar a flor como nasce. A semente que o vento lança na terra, sabe-se acaso, porque enfeza ou brota? Às vezes lá fica na eiva do rochedo. tempo esquecido, até que o céu lhe manda uma réstia de sol e uma gota de orvalho.''


6 comentários:


  1. Excelente a resenha Leonardo! Til é um clássico da literatura nacional e, uma das melhores obras daquela época. Lendo a resenha deu saudade de lê-lo novamente e, é maravilhosamente prazeroso, poder relembrar os clássicos. Abraço!

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    1. Obrigado Luciano, leia sim, você vai se surpreender ainda mais na sua releitura. Esse clássico merece nosso prestígio.

      Abraços.

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  2. Oi
    nunca vi falarem desse livro, mas a trama parece ser interessante.
    Eu tenho curiosidade de ler algo desse autor e realmente preciso ler os dele que parecem ser muito bons.

    momentocrivelli.blogspot.com

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    1. Olá Denise, tudo bom?

      Fico muito feliz por sua presença e também por expressar a tua opinião aqui nesse cantinho. Bom, o que tenho a dizer é que, assim que puder, leia sim. José de Alencar é um excelente romancista nacional e suas obras contam sempre com resquícios de críticas sociais. Enfim, indico TIL e José de Alencar, você certamente não irá se arrepender.

      Beijos!

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  3. Bela resenha, Léo! Sem dúvida, esse é um dos melhores clássicos da nossa literatura e, para mim, o melhor de José de Alencar. A trama é perfeita e a construção dos personagens é muito bem elaborada. Com a sua resenha, senti vontade de reler o romance, coisa que raramente faço. Abraço.

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    1. Olá Ademilson, muito bom te rever por aqui, prestigiando novamente a nossa literatura. Sinto-me muito animado quando vejo isso acontecer, pessoas se interessando pela literatura nacional. O livro Til é simplesmente fantástico, concordo com a sua concepção sobre a obra. Quando puder, releia-a, aconselho.

      Abraços e obrigado pelo elogio.

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