À procura de respostas sobre a existência nos 'Acontecimentos na Irrealidade Imediata'


As descobertas do narrador durante a infância e adolescência, narradas com a conformidade das inflexões detalhadas, às vezes, incoerentemente, porém, provocante, incontrolável, que maquina sua consciência e a espelha com a do autor, são o pouco do muito que se enxerga na esfera reflexiva de Max Blecher. ''Acontecimentos na Irrealidade Imediata'' retém, não somente a agudeza da beleza interior e condicional do autor, narrador de sua autobiografia e criador de uma esfera tensionada na ficção, como também acelera a ação do inconsciente do leitor através do enigmático modelo da apresentação. As dúvidas sobre ''o que realmente é'' e as melancólicas referências de um ser entediado e frustrado se combinam com os momentos de experiências eróticas do jovem protagonista. O afetivo e impactante modelo diferencial desta obra é um convidativo ao estilo Franz Kafka. Esta é uma leitura que visa um sentido para as incertezas da vida.


Acontecimentos na Irrealidade Imediata / Max Blecher / 183 páginas / 2013 /
COSAC NAIFY / Romance / COMPRAR

Esta obra é uma ficção autobiográfica altamente experimental. Narrado na primeira pessoa, o romance conta uma história de amadurecimento onde os conflitos da adolescência se encontram exacerbados pela subjetividade de um narrador hipersensível e que sofre de uma grave enfermidade. Ao longo do romance, o narrador descobre sua sexualidade e vivencia um profundo isolamento, como diz Bruno Zeni no texto de quarta capa, 'em busca de um sentido último para a própria existência'.


A melancolia da infância e a nostalgia da inutilidade do mundo são focos constantemente expressados pelo autor no romance. A descoberta de tantos eixos individuais, como a sua sexualidade, se conflitam com as descontentes experiências vividas pelo protagonista. O autor deixa claro a sua insatisfação diante da vida e de suas fases, levando em consideração — às vezes —  as suas aventuras e práticas que lhe dão instantes de excitação. A essência experimental do erotismo faz parte da história, na verdade como uma espécie de concordância presente desde a infância do autor, que não se limita a explicitar diversas vezes as suas dúvidas ''saborosas'' sobre as ações mais ocultas e misteriosas. ''Naquele momento, senti-me tomado por uma daquelas minhas crises... De repente, Walter se aproximou de mim e começou a me chacoalhar para me arrancar do sono. Quando abri completamente os olhos, Walter estava inclinado sobre o meu púbis, com a boca grudada com força ao meu sexo. Era impossível compreender o que estava acontecendo.'' Em outros duelos, a busca pelo sentido reflexivo da sua própria existência preenche suas memórias e desatina outros acontecimentos na sua irrealidade imediata. Daí o título do livro, que leva o leitor a imaginar que a narrativa autobiográfica tenha acontecido de fato, mas seguramente de uma maneira não tão exata como a narrada; o certo a dizer é que ela esteja viva em uma realidade distante e diferente.

''Assim, todos os acontecimentos da minha vida eram fadados a surgir de forma brusca e intermitente, sem que eu os pudesse compreender, encerados em si mesmos e isolados do passado.''

A harmonia de infinitas formas da matéria surgem como uma proteção para o jovem protagonista, que visa a todo o tempo proteger-se de sua própria figura; de seu próprio medo de se auto justificar e não encontrar as respostas que o leve diretamente a sua perfeita definição.

''Noutra ocasião, pus-me a pensar nas cavernas e buracos... com sua altura vertiginosa... elástica e quente, a inefável caverna sexual. Na cama, enlouquecido pela falta de sono e pelos objetos que, incessantes, preenchiam o quarto, eu me metia debaixo das cobertas e investigava, com um cuidado tenso... Certa vez, meu pai me encontrou, à meia-noite... mas, não me disse nada, nem brigou comigo. Creio que a descoberta foi tão estranha que ele foi incapaz de encontrar vocabulário ou moralidade que pudesse ser aplicada ao caso.''

Torna-se particular para o autor e perfeitamente claro para o leitor e crítico desse compacto volume literário, que ele — autor — em diversos instantes se entrelaça no âmago de personagens fictícios para satisfazer suas ações jamais realizadas, praticando-as então em sua irrealidade. Embora todos — ou quase todos — sejam semelhantes em suas exterioridades e conceitos, cada qual particularmente exibe suas crises de maneiras próprias, afinal, ''Não há nenhuma diferença bem estabelecida entre a nossa pessoa real e nossos diferentes personagens interiores imaginários.''

A paixão pelo cinema culmina na apresentação do próprio protagonista, o tornando parte do próprio espetáculo da vida, onde pudera agir e mostrar-se quase que por completo, como um espelho a refletir a sua imagem. ''Exibia o sexo aos transeuntes com um gesto que, se fosse utilizado com outro objetivo, seria considerado 'pleno de estilo e elegância'. Que esplendido, que sublime é ser louco! Da mesma maneira, sem nenhum esforço, como uma consequência lógica do simples fato de ver, eu me imaginava, na sala do cinema, vivendo intimamente as cenas projetadas sobre a tela, assim como me vi, diante da barraca do fotógrafo, no lugar daquele que me fitava fixamente do cartão.''

Um artista melancólico da vida a descobrir em sua própria cena os mais misteriosos segredos sobre si, é exposto e desadormece no leitor um ar nostálgico e mundano, breve, corrompido e tão banal, presente em cada personagem da irrealidade imediata. A melancolia não é o sentimento a se observar no contexto geral da obra, e sim a frustração por não ter vivenciado o seu modelo perfeito de representação dentro da ficção. Nota-se, além do incontestável talento do autor, a necessidade de impactar o próximo, com menções e noções artísticas e profundos confrontos.

Embora seja exagerado afirmar que o protagonista toma a forma de um louco, levando em consideração vários trechos de sua narrativa, em muitos momentos é exatamente isso que parece. ''Esse cara é um louco'', é o que certamente afirmará com afinco o leitor. O garoto magro, pálido, alto e de pescoço fino é retratado sobre aspectos dissemelhantes dessa própria definição. Não são as características físicas de um desajeitado, tímido e deprimido que lhe dão a pré-definição de loucura. E aquele que pensa ser o comportamento, também estará equivocado, pois todos eles partem inicialmente de seus bagunçados pensamentos. Mesmo que ao redor do jovem as coisas mais simples e elementares da vida se façam real, os acontecimentos narrados se disturbam de maneira brilhante. Suas crises são decorrências de uma infância desequilibrada.

Entende-se desse modo a necessidade de o jovem encontrar a matéria ideal durante a fuga de si mesmo, algo que lhe sirva como justificativa; remédio para a sua existência. A busca pelo sentido da vida é incessante. ''Eu queria morar naquelas casas, deixar-me penetrar por sua intimidade, dissolvendo em sua atmosfera, todos os meus devaneios e amargores.'' Com uma escrita irremediavelmente bela e sofisticada, as reflexões e revelações do protagonista desenham o quase retrato de um romance social revestido com um pano de fundo onde a existência, por fim, é interpretada de forma surpreendente. A vertente do desfecho dos acontecimentos é expressamente única e impactante. ''Acontecimentos na Irrealidade Imediata'' é uma excelente indicação para os amantes das incertezas e indagações.

''Acho que só aquela sede ardente de preencher o vazio dos dias, de qualquer modo e em qualquer lugar, fizera com que eu enveredasse por uma nova aventura.''


4 comentários:


  1. Cara, que resenha show hein! Livros assim, sempre irão me convidar para o ler. Livros que nos fazem refletir, e nos fazem questionar o porquê dos sentimentos, o origem e a causa desse turbilhão de emoções que é o Ser humano. Me parece ser um livro bastante introspectivo, voltado para si mesmo, gosto muito, preciso ler essa obra o quanto antes. Certeza de que essa leitura me agradará. Forte abraço!

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    1. Valeu Luciano!
      O livro é bem introspectivo sim, e isso também é um ponto que me agrada demais na literatura. O autor é muito bom, tu vais gostar da leitura certamente.

      Abraço.

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  2. Uauuu! Que resenha linda, e que livro é esse?Quero pra mim!

    Freud em seus estudos acreditava que as experiências sexuais da infância determinava os adultos. Uma criança que não teve sua sexualidade bem inicializada de certo terá dificuldades no decorrer de sua vida. Isso assustou a todos, mas hoje percebe-se claramente esses desarranjos sexuais.
    Sendo o primeiro a apresentar a exploração do prazer corporal, tirando de nos a ideia de criança inocente, e nos afirmou que existe sexualidade infantil sim, e que o prazer inicial se dar com a fase Oral, em seguida o Anal e depois a Genital, e é a partir daí que surge o anseio pela descoberta e as curiosidades. Por isso o ambiente adequado para uma criança é primordial, porque do contrario, os transtorno podem acontecer e fazer dessa criança um ser humano não bem resolvido sexualmente.
    E o que se percebe na resenha é justamente os conflitos de um adolescente com a sua sexualidade, mostrando nitidamente o que Freud afirmou em seus estudos.

    Preciso ler esse livro, comportamento humano é algo que acho o máximo, temas assim me fascinam.

    Resenha espetacular, parabéns meu querido!

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    1. Que beleza de comentário, como sempre, nos conceituando sobre momentos e citações importantes; Se Freud disse então tá dito! rs.

      O livro deve lhe agradar, querida Geh, a narrativa e o tema é bem chamativo.

      Beijos e obrigado pela presença marcante e opinião.

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