A beleza do romantismo em 'A Moreninha', clássico da literatura brasileira


Rio de Janeiro, 1840, século XIX, encetativo do Segundo Reinado, que em 23 de julho, uma medida constitucional que antecipou a maioridade de Pedro de Alcântara, o tornava com 14 anos coroado ao trono e ao governo imperial como dom Pedro 2º. É neste quadro histórico mas sem exibir argumentações políticas e sociais que Joaquim Manuel de Macedo conta-nos sobre ''A Moreninha''. Diferente de outros clássicos nacionais que recuperam os já conhecidos problemas sociais e culturais do país, o carioca, jornalista e médico, transcreve nas linhas de seu romance, a perspectiva de um Rio de Janeiro vivenciado à pele de jovens da classe média da agitada cidade. O romance contorna ares filosóficos e poéticos exibindo a verdadeira essência do movimento intelectual do romantismo. O caráter sentimental e individual da obra são proeminências ressaltadas pela ansiedade existencial e romântica do personagem central, Augusto. Os padrões de um Brasil onde os interesses da classe dominante do século foram favorecidos pelo seu regente governo, não são informes prioritários em ''A Moreninha'', que visa primeiramente, exercer sobre o leitor o senso romanesco, instigando-o ao encontro da essência subjetiva do amor. ''Malditos românticos, que têm crismado tudo e trocado em seu crismar os nomes que melhor exprimem suas ideias!... O que outrora se chamava, em bom português, moça feia, os reformadores dizem: menina simpática!... O que em uma moça era antigamente desenxabimento, hoje é ao contrário: sublime languidez!... Já não há mais meninas importunas e vaidosas. As que forem, chamam-se agora espirituosas! A escola dos românticos reformou tudo isso, em consideração ao belo sexo."


A Moreninha / Joaquim Manuel de Macedo / 150 páginas / 1884 / 2009 / Ciranda Cultural / Romance


Publicada originalmente em 1884, a obra "A Moreninha" narra o cotidiano de três jovens amigos- Augusto, Filipe e Leopoldo- que fazem uma aposta durante um feriado em uma pequena ilha. Augusto, considerado volúvel e inconstante, maravilhando-se por todas as moças, escreveria um romance caso conseguisse se apaixonar até o fim da viagem. Durante sua estadia, conhece D. Carolina, a quem chamam de Moreninha, por quem se encanta, mas não se deixa envolver para não quebrar uma promessa de fidelidade feita a uma menina de quem pouco se lembra. Mas a jovem morena vai envolvê-lo, e o feriado na ilha trará muitas surpresas.


Na novela ''A Moreninha'', Joaquim Manuel de Macedo aposta em argumentos reais ao mostrar, sem vergonha, os sentimentos mais belos, bobos e patéticos dos jovens personagens, principiantes na arte do amor. Vale lembrar que este é considerado o primeiro romance romântico da literatura nacional por negar a inclusão na obra de elementos contrapostos ao romantismo. 

''Concordando com algumas de tuas opiniões a respeito de amor, sempre entendi que uma namorada é traste tão essencial ao estudante, como o chapéu com que se cobre ou o livro com que estuda. Tu és ultrarromântico e eu ultraclássico.''

Uma excepcional retratação do romantismo brasileiro é expressada através dos impasses dos jovens. Com seus inconstantes sentimentos — principalmente os de Augusto —, e de suas paixões juvenis, denota-se almas de prósperos aspirantes a poetas do cotidiano do século XIX. Tudo era em busca do novo e da perfeição. Galantear tornava-se precípuo, e o jeitoso Augusto quem o diga! Entre os estudantes, percebe-se o ousado, o medroso, o espectador e o despretensioso, todos inexperientes, até mesmo aquele que mais se entendia por conhecedor exímio do amor, inconstante, acessível a todas as belezas, repudiando-as ao mesmo tempo para correr atrás de outras, que eram logo deixadas a vista de uma nova, como se ele fosse a inércia da matéria. 

O modelo feminino apresentado pelo autor é o característico conhecido do século XIX. As moças recatadas, as velhas indecentes... ou, quem sabe, a expressão se possa inverter: moças assanhadas e velhas santas, com o incontrolável desejo de encontrar-se nos braços dos seus conquistadores. O corpo social de classe média é um núcleo representativo fiel aos padrões culturais e, a todo o momento, os personagens comportam-se como diligentes e doutrinados jovens e senhores. A beleza do enredo encontra-se justamente nessa ponto, pois embora o país, já desde os anos anteriores viesse passando por momentos de imparcialidade política e ainda viesse passar por rebeliões que eclodiriam em diversos Estados, o autor preferiu seguir a linha inversa do que o povo estava acostumado a ver, ouvir, falar e vivenciar. 

Ocasionalmente, ele privilegia seu protagonista com sinais invertidos ao estilo próprio do romance, mostrando seus impulsos e tornando-lhe nada mais nada menos que um mero mancebo ainda em descoberta de toda a exterioridade da imagem feminina, facultando pensamentos de prazeres, inclinações e instintos naturais, características comuns encontradas no naturalismo. As poucas brechas abertas à cultura do Rio de Janeiro são retratadas quando encontra-se citações a lugares históricos, detalhes sobre os trajes, e a presença de escravos, personagens sem muita participação mas que deixam claro a forte herança cultural.

A ideologia de inocência e diversão qualifica os personagens a cada alteração de comportamento, afinal, como diz o autor, ferir a vibra mais sensível e vibrante do coração da mulher, a fibra do amor, não é um crime, não é pelo menos, louca e repreensível leviandade, é apenas, apenas perdoável e interessante divertimento de rapazes.

O romance entre Augusto e D. Carolina — a Moreninha —, reverbera, além do sentimentalismo, inflexões a paciência, destino e descobertas. A travessa Moreninha surpreende até o último centímetro do espírito, alma e corpo do jovem médico. A ironia o fere. A interessante Moreninha lançou sobre Augusto um olhar de aprovação e sorriu-se brandamente; gostou de o ver manejar sua arma favorita. A imagem da adolescente muda os ideais do rapaz e um admirável e profundo sentimento sentimento passa a preenchê-lo. 

A essência filosófica encontrada no eixo do romance é manifestada com habilidades belas e saudáveis; o amor, sentimento puro, irreversível — quem dirá que não? —, e por todos jamais definido de forma compreensível, dá possibilidade ao autor de aplicar pertinentes pensamentos: A minha inconsciência é natural, justa e, sem dúvida, estimável. Eu vejo uma senhora bela: amo-a, não porque ela é senhora... mas porque é bela; logo, eu amo a beleza. Ora, esse atributo não foi exclusivamente dado a uma senhora, e quando o encontro em outra, fora injustiça que eu desprezasse nesta aquilo mesmo que eu tanto amei na primeira.

A novela tem características teatrais e uma linguagem simples de caráter metalinguístico. O meio nobre em que se passa a narrativa possibilita definir o perspicaz jovem protagonista como um aspirante filósofo, conhecedor da beleza feminina e até de seus mais salientes pensamentos. Entretanto, em confronto, permite o reflexo encontrado através da personagem Moreninha, dona da subjetividade do poeta, dona dos atributos que lhe desprendem a paixão. Os pontos a respeito dos desejos e comportamentos entre os sexos são revelados de forma poética e fascinante.

''Corremos a brincar juntos com toda essa confiança infantil que só pode nascer da inocência e que ainda em parte se dava em mim, posto que já esse tempo fosse eu um pouco velhaquete e sonso, como um estudante de latim que era, e por tal já procurava minhas blasfêmias no dicionário. É sempre digno de observar-se esta tendência que têm as calças para o vestido! Desde a mais nova idade e no mais inocente brinquedo aparece o tal mútuo pendor dos sexos... e de mistura umas vergonhas muito engraçadas. Eu cá sempre fui assim, sempre preferia esconder-me atrás das portas com amenos bonita de minhas primas, do que com o mais formoso dos meus amigos de infância.''

O autor foi pertinente e usou em seu enredo conhecimentos sobre a medicina, área em que formou-se, porém não chegando a exercê-la. Augusto, quiça seja uma personificação do próprio Joaquim Manuel de Macedo em sua juventude. Com uma escrita determinante e muito atraente ele surpreende a todos com um desfecho onde o romantismo não só se faz presente aos personagens como também ao leitor. O livro tornou-se um de meus favoritos do ano. Leitura altamente recomendável.

''Assim como o grito tem o eco, a flor o aroma e a dor o gemido, tem o amor o suspiro; ah! o amor é um demoninho que não pede para entrar no coração da gente e, hóspede quase sempre importuno, por pior trato que se lhe dê, não desconfia, não se despede, vi-se colocando e deixando ficar, sem vergonha nenhuma...''



10 comentários:


  1. Muito boa a resenha. Eu li esse livro e a obra é estupenda. O amor citado no livro é grandioso, o amor pela vida, nem que seja fragmentos, resquícios do nobre sentimento a vida torna-se menos dolorosa. Difícil mesmo é viver sem o amor ou não ter com quem partilhar isso, aí talvez o melhor a fazer seja desistir de tudo e entregar-se à dureza da realidade em que o Planeta se transformara atualmente. A violência está por todos os lados, não há lugar seguro para nos abrigar. Alguns buscam na religião a tal fuga para fugir da cruel e triste realidade, o que no meu ponto de vista é pior do que, quem não o faz. Abraços!

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    1. Olá Luciano, verdade, o livro nos faz, em meio aos momentos sentimentais entre as personagens, refletir sobre o sentimento amor e em consequência disso, sobre a vida.

      Ótima visão, sua opinião por aqui sempre fazendo a diferença;

      Valeu, abraços!

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  2. Que resenha linda, muito bom relembrar, li a Moreninha aos 17 anos, e reli quando fiz a graduação de Letras, e este livro fazia por fazer parte do Romantismo,liamos. Na época foi sucesso e continuas a fazer até hoje.

    Lembro que na época da adolescência ficava encantada com ao amor entre Augusto e D. Carolina, o livro é muito lindo, e só depois vi me atentar para os costumes e organizações da época, uma das coisas no livro que não esqueço era que havia uma lenda , me marcou demais , se não me esqueci fala de um amor de uma moça por um índio que por não ser correspondido a gruta ao invés de verte água mais sim lagrimas, diz ser o choro da moça... putz, uma estória dentro de outra. Livro muito rico , sem contar no contexto histórico da época, no qual o pai passando por transformações , no qual muitos tentavam copiar os costumes Europeu.
    Interessante é que o autor apesar de escrever tantas outras obras nenhuma teve a mesma repercussão que a Moreninha.

    Muito bom poder ler algo tão completo, e você Leonardo nos apresentou a obra muito bem, definiu quem é a coisa que se fala, gosto disso nos situar direitinho, enfim você mandou bem moço!
    Parabéns!

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    1. Obrigado querida, que bom que gostou de relembrar esse clássico. Porém, discordo no condizente ao sucesso atual. Na literatura nacional do momento, os clássicos não passam de meras obras largadas à poeira. A parcela daqueles que as dão valor é muito pequena. Nenhum dos clássicos, hoje em dia, faz mais sucesso. Talvez, 'Meu Pé de Laranja Lima', livro mais vendido em E-book no Amazon e que ainda terá resenha aqui, junto ao 'Dom Casmurro', sejam os únicos que ainda conseguem ser mais enxergados.

      Obrigado pelo complemento da obra em sua opinião, sempre muito bem recebida por aqui.

      Beijos, valeu pelos elogios quanto a crítica.

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  3. Olá.
    A Moreninha é simplesmente um clássico maravilhoso.
    Ainda não tive o devido tempo para ler essa obra, porém assisti uma peça na minha escola sobre ela, e se pela peça, com vários adolescentes com cara de desanimo me deixou animada, imagina o livro rs. Adorei o fato desse post, relembrando os antigos classicos Joaquim Manuel de Macedo é maravilhoso.

    Beijos

    http://teattimee.blogspot.com/

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    1. Olá Loysla, que legal, obrigado!

      Nossa, uma peça de ''A Moreninha''? Sem dúvida, se seguiram os parâmetros apresentados no livro, deve ter ficado muito bom. Muitos já devem ter recomendado esta leitura a você, então, farei isto também. Leia o quanto antes, você vai se surpreender. Os admiradores dos clássicos nacionais precisam lê-lo.

      Beijos e obrigado pela visita.

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  4. Querido, apesar de você discordar do sucesso atual do clássico "A Moreninha", te entendo,eu até concordo, pois não vemos hoje em dia jovens voltado para tal leitura , no entanto falei mas com o olhar acadêmico. Essa leitura é sucesso no ambiente acadêmico. Não só "A Moreninha" como vários outros clássicos.Com isso, o número de quem não ler não faz dela menos requisitada. A critica social da época se faz necessária hoje para a compreensão de um passado, por isso o meu falar sobre o sucesso atual.E muitos clássicos fazem sucesso no mundo intelectual, podes crê!

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    1. Ah sim, sucesso acadêmico, ok, mas você esqueceu de mencionar esse ponto importante. Quando ao sucesso intelectual, sim, ele sempre existe, mas não o vejo como um meio de interação ente outros leitores. Sinceridade, o que vejo em relação aos clássicos brasileiros circulando nos grupos de discussão do público [não apenas jovem, mas também dos que já se dizem bons, fiéis e maduros apreciadores da literatura] não é nada bonito de se mencionar por aqui.

      Beijos querida.

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  5. Oi
    muito boa a resenha, quero ler esses clássicos sem ser por obrigação para ver se gosto da leitura, nem lembrava da história direito.

    momentocrivelli.blogspot.com

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    1. Oi querida Denise, obrigado pela visita.

      A história vai te agradar, com certeza. Leia-o quando puder, não vai se arrepender.

      Obrigado pelos elogios à resenha.

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