E se você tivesse ''O Livro do Destino'', quais seriam as suas escolhas?


Certas leituras, por mais que sejam fictícias e revelem consequências comuns do âmbito humano, conseguem impregnar no leitor a verdadeira abordagem, o melhor sentido possível e a clareza no objetivo do autor, que ao escrever tão cuidadosamente e expor suas mais íntimas ideias e até mesmo um pouquinho de si e de suas crenças mesmo que mais intrínsecas possíveis, deseja. ''O Livro do Destino'', obra do autor Raphael Miguel, mexe também com o psicológico de seus leitores, tanto quanto de seus singulares personagens, levando diretamente para os seus psíquicos, questionamentos que parecem estar já pré-escritos em cada indivíduo. Embora o autor não se manifeste em momento algum de forma agressiva em sua retratação, tais perguntas podem surtir o efeito contrário quando direcionadas à pessoas incapazes de encontrar as respostas mais precisas. ''Ao longo dos séculos, a possibilidade de traçar o rumo da vida das pessoas foi interpretado tanto como uma benção como uma maldição''.

''Ler 'O Livro do Destino' foi viajar para dentro da mente de um jovem que carrega diversas dúvidas comuns encontradas em tantos outros jovens ou velhos do nosso desgraçado mundo, e desejos, bons ou ruins, gerados por diferentes consequências da formação familiar ou social.''


O Livro do Destino / Raphael Miguel / 212 páginas / 2015 / Chiado Editora / Ficção / Comprar


Sinopse: O que você faria se recebesse um artefato capaz de alterar o destino de pessoas ao seu redor, interferir no futuro e destruir realidades? O que faria se um instrumento de tamanho poder caísse em suas mãos? Praticaria o bem ou mal? Utilizaria para sanar as desgraças do Mundo ou para alcançar objetivos egoístas? Tentaria salvar àqueles ao seu lado, ou salvaria apenas a si mesmo? Eric Dias é um rapaz de recém feitos dezessete anos. Pacato, vive uma vida tranquila, sem grandes preocupações.  No entanto, um presente inusitado pode alterar para sempre seu destino e de todos ao seu redor. O que o rapaz fará com tal responsabilidade sobre seus jovens ombros?    


O enredo da história apresentada por Raphael Miguel é tão fascinante quanto todos os seus elementos. De início, pode até parecer um velho clichê dos filmes juvenis de ficção criados em Hollywood na década de 80, mas o leitor não se deixa levar por essa possível comparação e prossegue com a leitura que o empolga em poucos minutos e o convence do contrário quando o direciona a episódios realmente singulares e a personagens bem montados, caracterizados e brilhantes. Um idoso e um adolescente chegam a dividir a mesma 'cena' durante alguns capítulos passando ao leitor a confirmação de que o inesperado também faz parte do livro. Essa peculiaridade é encontrada em Eric, jovem de dezessete anos; em seu avô Régis, velhinho até certo ponto misterioso e bem estimado pelo neto; em Gastão, o primo ganancioso, amargo e rico de Régis; Ermes, o irmão durão; e em Vitor, o amigo de momentos. Decerto há ainda significativos participantes além desses. Tais personagens têm nomes fáceis para serem recordados e são participantes ativos de todo o contexto envolvendo o tal objeto, que como anunciado na premissa do volume, pode alterar o destino das pessoas. Mas, será mesmo?

''A desolação de Eric se baseava no fato de que o livro era um volume comum e normal, nada mágico. Estava decepcionado, pois, de alguma forma quase insana, já estava acreditando na hipótese levantada por Gastão e tecendo milhares de planos.''

Com uma escrita muito bem adaptável para todas as idades e caracterizada pela leveza e precisão na expressão, o autor sente-se à vontade ao anunciar suas ideias. Para um adolescente pacato como o protagonista, um presente peculiar de seu avô que, talvez pudesse mudar o destino de alguém, talvez fosse mesmo uma solução para modificar toda a sua rotina entediante. 

''A rotina de Eric não era muito interessante. Por ser um rapaz pacato, não carregava muitas atividades. Sua vida consistia em ir para escola, voltara para a casa, se enfiar no quarto e ir para a escola novamente.''

Não demora muito para que o leitor se questione sobre tal poderio do objeto de Eric e também sobre o conteúdo narrado por Raphael Miguel, afinal, quem não pensaria que tudo pudesse ser grandes sonhos distorcidos na mente do jovem protagonista? Comparações como essa, sempre muito bem aceitas em livros de ficção, se tornam partes do conteúdo dessas obras e, dessa forma, conduzem os leitores e personagens diretamente as tais indagações os fazendo chegar a precisas conclusões. Nos diálogos dos personagens, a interação é de alto nível, impossível não ver perfeitamente personagens e situações se formando enquanto se lê.

''A tempestade da madrugada embalou um sono repleto de sonhos estranhos. Os sonhos eram extremamente reais e envolventes, ao ponto de Eric questionar se estava mesmo sonhando ou estava acordado. Por vezes acordou banhado em suor durante a madrugada e, às vezes, visualizava a figura incomum dentro do quarto. Tudo parecia tão real que o deixou pavoroso.''

A aposta do autor é jogar com o surreal refletindo diretamente os desejos reais dos personagens e leitores. Em conformidade, em muitos pontos da leitura, o leitor se depara com uma frase que lhe deixa bastante reflexivo sobre tal finalidade do livro mágico e do próprio autor: ''Nós é que traçamos o nosso próprio destino''. Diante disso, Raphael Miguel consegue a supremacia de invadir o intelecto do leitor para lhe mostrar que muito além da compreensão humana certamente existem coisas grandes e ocultas a serem ainda descobertas. Importante também reconhecer as diretrizes que o jovem Eric alcança ao fazer as suas escolhas durante a história. A obtenção da responsabilidade é, sem dúvida, uma dita um das mais observadas evoluções do garoto. Para as dúvidas de um possível artefato de conversão de destino apresentado na obra, o autor dita um ótimo argumento para o seu uso: ''O propósito principal do objeto não era propagar a ganância e a ambição, mas sim dar uma chance aos bons homens praticarem o bem.''

''O Livro do Destino'' é um intermediário que alcança diferentes intenções que talvez nem a ciência consiga explicar tão bem. Lançar-se como um deus capaz de alterar o curso original da história é, dentre tantos desejos humanos, um dos mais desejados. O ser humano, desde o princípio, tende a desejar o poder e o seu uso contínuo e a qualquer momento. A ganância, desejo exagerado de sempre ter e poder mais do que os outros, é uma das companheiras mais fiéis da humanidade desde o início de tudo e se manisfesta rapidamente quando estimulada pelo poder. Essa referência existe quando nota-se o jovem Eric de posse de um livro mágico e poderoso. O que fazer? A quem ajudar? Como  e no que interferir? A proposta de pano de fundo é fazer o leitor refletir profundamente sobre decisões, responsabilidade, ações e consequências.

Ao ler a obra, além de conhecer mais um talentoso autor nacional e seu enredo tão significativo, é possível extrair conhecimento do mesmo. Toda a situação vivenciada durante a leitura, por mais que pareça incomum, traz benefícios e prejuízos, e agora percebo com mais clareza pontos referentes a tais questões que antes passavam desapercebidos. A leitura se desencadeia agradavelmente e, quando se percebe, infelizmente a história do já querido Eric está chegando ao fim. Raphael Miguel desenvolveu uma história preciosa e apresentou uma série de possibilidades na 'timeline' do enredo. As consequências de ter um objeto poderoso nas mãos surgem aos poucos e trazem para a história, surpresas e desfechos apreciáveis.

''Totalmente atônito, passava por um momento de genuíno desespero. No escuro, mudo, paralisado. Estava quebrado, esquecido, abandonado. Não era mais Eric Dias, não era mais ninguém. Não estava em lugar algum.''

Um livro agradável demais e de enredo bastante chamativo. A linguagem expressiva do autor é maravilhosa e de fácil entendimento. Nota-se também a caracterização luzente dos personagens, extremamente interessantes. Eric instiga até mesmo o leitor para a sua jornada cheia de questionamentos. Raphael Miguel surpreende pela facilidade em expressar com singeleza assuntos ao mesmo tempo filosóficos, ideológicos, ficcionais e intelectuais que fazem, mesmo ao longe, parte do corpo social. Uma interessante metodologia de interação espera o leitor em ''O Livro do Destino'', tudo isso em uma diagramação e material bons. além da atenção quanto a ortografia. Certamente autor e obra merecem aplausos e cinco estrelas na classificação.



5 comentários:


  1. Cara o visual novo do blog ficou show. Parabéns! Eu sempre tive uma enorme curiosidade de ler esse livro. Já li muitas resenhas positivas dessa obra, e ao ler a tua resenha, certifique-me que é um excelente livro. Preciso ler essa obra, o quanto antes. A resenha como de costume, ficou excelente. Forte abraço!

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    1. Cara, muito obrigado, é muito bom te ver por aqui também. O livro é maravilhoso, de verdade. Que leitura tranquila, livre de cansaço. Eu recomendo.

      Obrigado e abraços.

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  2. Essa resenha ficou maravilhosa. Meus parabéns, o blog é incrível!

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    1. Olá Bruna, que legal que você tenha gostado. Costumo dizer que, quando o livro é tão maravilhoso, a matéria sobre ele sempre sairá tão bela quanto. Obrigado pela presença e elogios.

      Volte sempre.

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  3. Essa resenha ficou maravilhosa. Meus parabéns, o blog é incrível!

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