Os versos e poemas sonantes de Alceu Valença, 'O Poeta da Madrugada'


A resenha de hoje é destinada ao livro de estreia de um grande músico que representa com maestria o círculo cultural nordestino contemporâneo do nosso país. Trata-se de Alceu Valença, pernambucano nascido em Santo Bento do Una que assimilou a cultura e a música do agreste e do sertão. Seu volume ''O Poeta da Madrugada'' é composto por poemas com um tom popular gritante e atrai por sua musicalidade agregada em cada verso. Numa noite qualquer abri as portas deste registro e parti com prazer por uma Senhora Estrada sem saber onde faria parada. Sob a lua, vamos nós na madrugada...


O Poeta da Madrugada / Alceu Valença / 108 páginas / 2015 / Chiado Editora /
Poesia / Comprar


Sinopse: “Acredito que mesmo quem nunca ouviu Alceu cantar, quem não o conheça enquanto cantor, rapidamente se aperceberá de que estes são versos nascidos para a música. Ou melhor: são versos que já trazem consigo a música, uma melodia interna, que permanece em nós, que continua reverberando em nós, mesmo depois que nos afastamos deles.” Prefácio por José Eduardo Agualusa


O livro faz parte da coleção Prazeres Poéticos lançada pela Chiado Editora e já representa para a literatura brasileira um grande símbolo regional por trazer rasgando em seus versos e estrofes marcantes, o encantador tempero nordestino através da visão de uma ímpar figura que se manteve acesa durante décadas no cenário musical brasileiro. Alceu Valença despeja suas melódicas e por vezes saudosas palavras, compondo uma obra digna, atraente, magnífica e viva, e como já interpreta o querido José Eduardo Agualusa no vestimento de um prefácio grandioso, ''a poesia não serve, não explica, a poesia é aquela lua brilhando (brilhando apenas) na infinita imensidão''.

A escrita não é apenas perfeita e transcendente, o poeta consegue (ser e estar) pueril, flexível, sensível e bestial na marca exata constatando a simétrica lírica em sua trajetória. Se, em algum lugar deste vasto e desconhecido Universo, existir algo tão primoroso abaixo dos grandiosos seres divinos, esta matéria será representada por um desenho de modelo abstrato e cor de pluralidade azul, numa dimensão que não ultrapassa os 14x21, composta por 108 faces que transmudam-se entre a beleza do cotidiano, da noite, do dia, do humano... deparando-se com olhos famintos pela música e melodia, pelo novo e velho tempo, Tempo São Bento. Os poemas rasgam beiços, lembram toadas cantadas por vaqueiros, dão ''adeus!'', sentem saudade mas convidam para o começo da viagem pela Senhora Estrada da vida.


''Aonde é que tu vais, senhora estrada,
companheira fiel do meu destino
E do tempo que corre em disparada
Sobre ti e teu solo agrestino?

Onde é que vamos fazer parada?
Pois o sol está quente quase a pino.
Vou deixar o meu tempo de menino
Qualquer dias retorno para casa.
Sob a lua, vamos nós na madrugada,
Sob um sol causticante e cristalino.''


O Poeta da Madrugada não se importa com protagonistas. Em seus devaneios ou realidade, na escuridão gelada da noite ou na quentura insuportável do dia ensolarado, reverbera em sentimentos pessoalidades comuns e incomuns onde instantes — passado e/ou presente — se transformam em velhos companheiros de insônia e inspiração. Faça chuva ou tenha sol, tenha vento ou rouxinol, ali está o pensante poeta a escrever e sentir o que muitos não conseguem transmitir. O poeta fotografa com a mente o corpo da sua amada Recife e desvenda os contrastes que a cidade esconde por trás (do luxo e da seca), substâncias ou condições que preenchem o seio do urbe tão singular do cenário nacional. Cita Revoluções, ditadura e invenções; nomes importantes, personagens marcantes e o temperamento açucarado do povo sofredor do agreste. Não deixa dúvidas quanto a sua capacidade em revelar até mesmo aquilo que é mais difícil de se ver. Não deixa dúvidas quanto ao talento notório que lhe faz um dos homens mais expressivos da música brasileira. O Poeta da Madrugada mostra o Rio do sol escaldante, a Lisboa das chuvas, sonha com Bandeira, Quintana, Pessoa, Ascenso, Drummond e Cabral, ama Luzia, Luciana e Marias.

Entre um verso e outro aponta a sua sagacidade de berço e certifica a dupla herança cultural mostrando ao leitor uma esfera ampla onde tudo é possível em forma de poema: o amor, a saudade, o tempo, a solidão, a melodia, as cidades... Com linguagens líricas, alguns poemas merecem destaque por expressarem com presteza e homogeneidade poética as convicções do autor. ''Gato da Noite'' (1980), ''Como se eu fosse um faquir'' (1980), ''Solidão'' (1985), ''Mensagem dos Anjos'' (1973) e ''Dona de 7 Colinas'' (2004). No caminho do poeta Olinda, Empire State, Três Marias e Pilatos andam juntos, cabem no mesmo lugar, constituem a mesma estrofe em ''6 Horas''. E se por acaso houvesse o tal protagonista, quem seria então? O tempo? O sono? O cão? Não se sabe ao certo mas decerto os poemas vão chegar ao leitor e extasiá-lo por completo de maneiras diferentes a cada verso.


''Agora falo do medo
Que amordaçava o Brasil:
Em cada boca um segredo,
Em cada esquina,
Arrepio!''


O objetivo de tocar o leitor com a emoção encontrada nos versos, estrofes e poemas é alcançado com facilidade. A mensagem de Alceu, a sua musicalidade pessoal ante as coisas que viu, ouviu, pensou e sentiu é transmitida com precisão numa quase biografia dedicada a Yanê, musa da noite, aquela que o nomeou Poeta da Madrugada. Essa musicalidade vive no poeta e, talvez, seja ele a própria melodia viva com cheiro de saudade (se é que melodia tem cheiro) e tempero de vontade. O anúncio de uma noite vazia antecede o fechar do volume e o ''Prazer de Escrever'' ainda vive dentro daquele que caminhou por ruas escuras e claras durante quase sete décadas. Para uma estreia, ''O Poeta da Madrugada'' alcança quaisquer expectativas positivas e garante as cinco estrelas na classificação. Uma obra indicada também para os mais novos (que apreciam ou querem conhecer poemas líricos).


''De repente, ouço a voz de Yanê
No quarto a chamar-me: "amor...?!"
Resolvo despir a fantasia de escritor,
De Poeta noturno e desligo o computador.''



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