A expressividade de 'Exorcismus - Sob a Influência do Mal', livro de Moisés Calado


A ciência, a espiritualidade, a filosofia, a psicologia, o antigo confronto entre as forças do mal e do bem, a épica batalha entre Deus e o Diabo. Um enredo extremamente real que expõe de modo, às vezes, imaterial, vestígios da escuridão. O livro foi escrito pelo autor Moisés Calado, brilhante pessoa que conheci através do Facebook, e envolve o leitor em diversos questionamentos ligados a áreas distintas, áreas estas que desde muito tempo se contrapõem. ''Exorcismus - Sob a Influência do Mal'' é uma publicação da Chiado Editora que mais uma vez merece aplausos por publicar uma obra tão cheia de riquezas que estimulam o psicológico dos leitores. Desde as minhas primeiras impressões, notei que me envolveria no enredo, e confesso que não tive como fugir do desejo em continuar lendo para descobrir as consequências das ocorrências nesse volume, ora tão sombrio e real, ora tão contencioso — para muitos — mas revelador para outros, sem deixar de lado a originalidade da existência dos fundamentos. Não a leiam as três da madrugada, as consequências poderão ser desastrosas; logo entenderão!


Exorcismus – Sob a Influência do Mal / Moisés Calado / 242 páginas / 2015 /
Chiado Editora / Ficção / Comprar


Sinopse: Numa singela cidade no interior do Agreste de Pernambuco, vivia uma renomada e abastada família que estava sofrendo com acontecimentos inexplicáveis, anormais. Um jovem escritor, advogado e pesquisador, numa certa manhã, é acometido por sua governanta que o notifica de um pequeno bilhete que lhe fora deixado antes que ele levantasse para consumar o seu ágape matutino. A mensagem praticamente o intimava a comparecer a maior e mais rica casa da região. Acompanhado de um antigo professor de psicologia da faculdade de Direito onde ele havia estudado, segue rumo aos desvendes desse grande e assustador mistério. Necessitando de uma ajuda científica que os receitassem medicamentos, os doutores Sócrates e Pedro enviam uma carta a capital solicitando a presença do renomado psiquiatra Paulo Lima. Inconformados com o caminho que os acontecimentos dentro da casa tomavam e sem mais opções no campo científico, os senhores da grande residência decidem chamar um dos mais conceituados padre exorcista das redondezas. Acompanhado por um jovem e cético padre recém-chegado do Vaticano, o exorcista Emanuel parte em uma grande jornada espiritual e instrutiva, duelando contra o ceticismo do seu companheiro e mostrando-lhe todos os caminhos e enlaces existentes na épica batalha entre Deus e o Diabo.


A narrativa apresentada por Moisés Calado em ''Exorcismus'' ditada em 3ª pessoa —, é intensa e sensata. Reconhece-se logo uma habilidade e amplo conhecimento do autor nas áreas agregadas ao enredo — o cotidiano religioso, a filosofia, o científico, o psicológico e o regionalismo. O estilo do autor é bem instrutivo e também detalhista, entretanto o mesmo não se tolhe quanto à necessidade de ser objetivo. Nota-se a vontade de Moisés Calado em expor o regionalismo de um pequeno lugar no interior do Nordeste brasileiro. Os costumes, os trejeitos, as falas, as crenças e até mesmo a riqueza que o próprio lugar oferece à população. Essas questões ficam evidentes em grande parte da história e dá um brilho a mais para ela, tornando-a agradável e autêntica. Tudo se passa em 1955, em Pássaro Preto, cidadezinha do interior do agreste Pernambucano, que na época, ainda pouco desenvolvida, apresentava comércio e recursos econômicos pequenos. Isso é exibido logo no prólogo do livro deixando o leitor muito bem misturado a história. Vale ressaltar que não houve falhas no desenvolvimento, tudo foi narrado como ocorridos de tal década e retratados de uma maneira muito eficiente. O autor ainda relaciona na gênese do livro, o gradativo crescimento da cidadezinha de Pássaro Preto.

Os capítulos do livro são curtos — 30 ao total — e a leitura não é extenuante. A diagramação segue a linha padrão de outras obras publicadas pela Chiado Editora. O foco dos acontecimentos vai ser gerado em torno da descaracterização comportamental do menino José, filho do Senhor Moraes, homem de aparência típica dos povos campesinos do Nordeste. Repentinamente, o menino de dez anos exibirá um comportamento incomum e agressivo, o que trará consequências grotescas aos envolvidos diretos. Aos poucos, os personagens são apresentados ao leitor e surgem para auxiliar o pai do menino na descoberta da repentina modificação de comportamento, como o advogado Sócrates, os padres Emanuel e Marcos e os doutores Paulo e Pedro. Isso vai gerar muitos questionamentos sobre as causas físicas ou metafísicas de tais oscilações. Será descoberto ao decorrer da história outros possíveis fatores que possivelmente ajudaram nos incidentes.

Falando em personagens, este é um dos pontos mais positivos do livro. A caracterização do autor foi excelente, principalmente pelos trejeitos e convicções de cada um; eles apresentam ideologias bem definidas em relação as suas crenças. Embora a religiosidade seja uma marca muito forte no livro, há personagens que se opõem a todo tempo sobre determinadas concepções. Outro ponto muito positivo para o autor é a composição dos diálogos, que foram elaborados com maestria. 

Um ponto muito importante a ser destacado é que, em nenhum momento o autor forçou o leitor a credenciar tais temáticas do seu livro. Um exemplo disso é o diálogo entre mãe e filho nos capítulos iniciais, onde ela, quando questionada sobre a existência de espíritos, passa sua visão ao menino sem o impor que acredite na mesma. Isso foi ótimo, afinal, é corriqueiro a interação sobre o tema mas a visão da sociedade não é ímpar. Moisés Calado deixa o leitor à vontade para entender e concluir o que quiser dentro das perspectivas relatadas pelos personagens. Essa escolha em não impor a necessidade de crer em credos e doutrinas foi de muita inteligência pois o verdadeiro objetivo aqui é o espargimento de conhecimentos diversos e experiências. A imprecisão do elemento fé também é colocada em debate algumas vezes no livro e revidada filosoficamente.

'' O ser humano é frágil e dependente. Você sabe que algo existe mesmo sem perceber, sem que esteja à sua frente. Essa é a grande beleza da fé. Não há verdade absoluta. Assim como, também não posso resignar muitas afirmações espirituais, já que muitas me deixam intrigado.''

Não demora muito para que seja narrado os primeiros fatos esquisitos com a família do Senhor Moraes. Os acontecimentos são agressivos e pesados. Deste ponto já é possível entender que o rumo da trama seria ainda mais obscura e excêntrica. A primeira narrativa da alteração comportamental do menino José logo é feita e causa possíveis lapsos de espanto naquele que lê.

''A cada dia que se passava ele tornava-se cada vez mais agressivo - passando de uma criança dócil e feliz, para um garoto assaz, hostil e incerto. Sua aparência estava mudando aos poucos. Era como se algo estivesse se nutrindo e o controlando [...] Ouvem-se inúmeros palavrões e ações excessivamente descaradas.''

A grandiosidade da obra é, na verdade, a clareza com que o autor debate a contraposição dos temas, ensinando aos leitores que se obter novos conhecimentos nunca é demais. A análise desse paradoxo mostra que não é de valia 'fechar as portas' para quaisquer meios de pensamentos, sejam científicos ou espirituais. 

''Não devemos ignorar qualquer forma que seja de conhecimento ou manifestação, sejam referentes ao material ou imaterial. Eu procuro agregar os polos religioso e científico em um todo. Busco em Deus a ciência que me falta e busco na ciência o Deus que me falta, o compreender do não compreendido.''

A transformação do caráter, muito debatida durante anos por especialistas também é argumentada em certos diálogos da história. A estrutura é exímia e realmente muito empolgante. O que a torna ainda mais interessante é saber que grande parte dos acontecimentos são baseados em fatos reais, assim como os personagens, que tiveram seus nomes originais trocados por questões de sigilo e caráter privativo, como informa o autor nas notas iniciais. Os fatos sobre-humanos — parte fundamental e bastante utilizada no livro — se tornam mais frequentes a partir de determinado momento da obra. A leitura e o ambiente para qual o leitor é transportado, se fazem tensos e a seriedade do assunto abordado é máxima. Não há deboches relacionados a nenhuma das ciências que o autor embate. Não é uma simples história fictícia com aparições fantasmagóricas, o âmbito meritório filosófico e psicológico é um dos alicerces, isto é o que gera um debate astucioso entre as ideologias.

''Ao ouvir os barulhos que assolavam o ambiente, o doutor Paulo não conseguia mais dormir. No instante em que sai do quarto ele sente que algo amofinava aquele lugar, porém sua mente científica o impedia de agir em contrassenso.''

Para prosseguir a análise, é importante conceituar três termos referentes a obra. Exorcismo, possessão e transtorno dissociativo de identidade.

O exorcismo termo que intitula o livro e ato que torna-se um dos procedimentos feitos por Padre Emanuel na tentativa de mudar o quadro clínico do pequeno José — é um ritual feito por uma pessoa devidamente capacitada para expulsar espíritos malignos ou demônios de outras pessoas que estejam em estado de possessão demoníaca. A prática é muito antiga e é feita por várias crenças e culturas mundiais.

A possessão ocorre quando o indivíduo é controlado por seres malignos ou sobrenaturais e podem prejudicar a saúde, mudar o comportamento e trazer à tona personalidades incomuns.

Assim, chegamos à dupla personalidade — transtorno dissociativo de personalidade — que leva o indivíduo a demonstrar características de outras pessoalidades (este é o diagnóstico arrematado por um dos personagens em relação ao comportamento de José). Vale lembrar que a possessão demoníaca não é um reconhecida pelo DSM-IV e CID-10 como diagnóstico psiquiátrico ou médico.

Dessa forma, entende-se de uma vez, que o livro de Moisés Calado é realmente muito inteligente e busca transmitir muitos conhecimentos sobre as áreas citadas, emitindo ao psicológico, questionamentos fundamentais. Muitos pensarão que o livro se trata de um clichê antigo de obras religiosas relacionadas ao exorcismo, mas pondera-se racionalmente o teor científico e ideológico agrupados ao excelente enredo. Há trechos que fazem referências a grandes cientistas e filósofos da história mundial. Isso fez uma grande diferença ao material como um todo. Isaac Newton e Aristóteles foram lembrados e citados por Moisés Calado. ''(...) O que sabemos é uma gota; o que ignoramos é um oceano (...)'' - Isaac Newton. ''A virtude encontra-se exatamente no meio-termo; o excesso e a falta o torna sem virtude (...)'' - Aristóteles.

Ainda relacionado a filosofia, o personagem Sócrates em ''Exorcismus'', direta ou indiretamente, acaba aludindo outro grande ícone da filosofia mundial, homônimo. O método de questionamentos deste filósofo se adéqua-se perfeitamente aos trejeitos apresentados pelo personagem na obra, em que não apenas empenha-se para obter respostas específicas, mas também encoraja uma compreensão clara e fundamental do assunto sendo discutido. O desfecho de ''Exorcismus'' é muito bom. A história toma um rumo que acarreta consequências graves para muitos personagens, o que é muito interessante pois livra o enredo de evidentes conclusões. O ritual romano de exorcismo inicia-se com as preces do padre Emanuel, personagem que mostrou-se inabalável no decorrer da história e cresceu junto aos outros em relação ao discernimento. O ocorrido é bem narrado e instiga o leitor. Um fato bem interessante é que o ritual dito pelo padre encontra-se escrito em latim no livro.

É admirável o esforço que os personagens, — em meio ao ambiente peculiar nordestino onde tantos acontecimentos como os narrados e as práticas religiosas sempre foram tão comuns —, fazem para ajudar o pequeno José. Ao mesmo tempo, se inteiram ainda mais quanto aos seus ideais, sem maleficiar as ciências opostas. Segue-se uma linha muito interessante considerando as perspicácias humanas, comprovando que os embates geram gnoses importantes para o convívio em sociedade. Convictos ou não, os leitores presenciarão fatos de ocorrências sombrias, que trazem à tona, sim, a dubiedade daquilo que, às vezes, não se vê ou se acredita. A metodologia que o autor usou para expor um assunto que já ronda a sociedade desde os tempos mais antigos foi merecedora de aplausos. De um jeito ou de outro, cruzam-se como protagonistas, o bem e o mal, Deus e o Diabo, Naturezas clássicas e distintas que se confrontam mesmo na descrença dos mais estudiosos. Dentre tantos pensamentos, é certo e incontestável que o mal exista em várias formas e assim como quaisquer outros elementos acarretará consequências psíquicas para aqueles que estiverem sob a sua influência.

O livro é muito interessante e indicado para aqueles que tem uma intelecção bem aguçada. Às vezes é possível sentir-se impotente com os fatos surpreendentes descritos e incerto diante de tantas possibilidades. Os pontos negativos vão para os erros ortográficos. A revisão da Chiado Editora desta vez foi falha. Houve descuido e infelicidade com a obra de Moisés Calado. Em conversa com o autor, descobri que o livro foi escrito há quase oito anos mas publicado somente em 2015. Desta vez é preciso uma crítica ao empenho da editora em relação a revisão, afinal, uma leitura agradável também é consequência de uma escrita exemplar. Às vezes, os erros incomodaram sim. Quatro estrelas para ''Exorcismus - Sob a Influência do Mal'' e muitas palmas ao querido autor Moisés Calado, que merece nosso prestígio. Fiquei sabendo que o autor lançará uma nova obra em breve e já estou bastante ansioso. A leitura me agradou intensamente e supriu minhas expectativas. É muito bom ter esse livro em meu acervo literário e poder indicá-lo aos meus amigos e seguidores. É um livro que poderia facilmente se tornar um documentário. Espero que em breve uma 2ª edição seja publicada com melhorias na ortografia. Enquanto vocês comentam, seguirei o meu ritual por aqui... Ha-ha-ha.

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