A ternura do jovem Leon Leyson, 'O Menino da Lista de Schindler'


O livro que trago hoje para resenha, fará vocês, leitores, seguidores, amigos e acima de tudo amantes da humanidade, adentrarem ao fim da década de 30 — mais precisamente 1939 — e acompanharem a invasão do exército alemão a Polônia, pungindo milhares de vidas enquanto implementavam suas práticas nazistas. Vocês já pararam para pensar em como seria viver os tempos do NAZISMO? Já estudamos sobre o assunto na formação de nossa carreira acadêmica mas aposto com vocês que esse acontecimento que devastou países não fora constatado tão profundamente por todos, levando em consideração algumas estórias que vemos por aí, que às vezes, não relatam tão intensamente os ocorridos. Talvez, mesmo que muitos já tenham pensado e estudado sobre o Nacional-Socialismo, esses pensamentos e conhecimentos — até para os maiores estudiosos no assunto — jamais se aproximarão do que realmente foi sentido e vivido pelos judeus durante os ataques que dilaceraram suas famílias. Esse livro pode te fazer ter uma melhor noção de como ocorrera uma parcela dessa destruição. Relato aqui o compassar mais acelerado do coração e o lamentar inútil mas, humano, das vidas que se perderam nas ruas, casas, fábricas de suas cidades e nos campos de concentração, como o de Auschwitz. Como já prescrito no decurso do livro, ''O Menino da Lista de Schindler é um legado de esperança e um chamado para que todos nós nos recordemos daqueles que não tiveram a chance do amanhã''.


O Menino da Lista de Schindler / Leon Leyson com Marilyn J. Harran e Elisabeth B. Leyson /
256 páginas / 2014 / Editora Rocco / Juvenil / Comprar


Sinopse: Um pequeno vilarejo, os irmãos, os amigos, as corridas nos campos, os banhos de rio: essa é a verdadeira história de Leon, a história de um mundo despedaçado pela invasão dos nazistas. Quando em 1939 o exército alemão ocupou a Polônia, Leon tinha apenas dez anos. Logo ele e sua família foram confinados no gueto de Cracóvia junto a milhões de outros judeus. Com um pouco de sorte e muita coragem, o menino conseguiu sobreviver ao inferno e foi contratado para trabalhar na fábrica de Oskar Schindler, o famoso empreendedor que conseguiu salvar mais de mil e duzentos judeus dos campos de concentração. Neste testemunho que ficou por tanto tempo inédito, Leon Leyson nos conta sua extraordinária história, na qual, graças à força de um menino, o impossível se tornou possível.


Fui atacado nas primeiras páginas de ''O Menino da Lista de Schindler'' pelo espírito bondoso e inocente do narrador da estória, e mesmo nos primeiros capítulos foi impossível não ter os olhos úmidos enquanto o singelo Leon Leyson, aos dez, inicialmente conta suas aventuras de menino junto aos amigos em Narewka, cidade da Polônia. A exposição de suas memórias contém um alto índice de emoção. Ele relembra as partes mais felizes de sua vida infantil antes de nos mostrar os massacres que viveu durante o nazismo. A estória segue-se por cinco eixos que estruturam a narrativa: inicialmente o pequeno Leyson nos cita Narewka e logo depois a sua família muda-se para Cracóvia, cidade a mais de 500 km de Narewka. Lá as coisas começam a desandar e os rumores sobre uma guerra se espalham pela população. E é justamente após sair do gueto de Cracóvia que Leon depara-se com o verdadeiro inferno do nazismo: os campos de Plászow e Gross-Rosen. Esse é o período que mais impressiona no livro. Muitos relatos são fortes e a veracidade dos trechos prende a atenção. Só então, após muito sofrimento, nos deparamos com os relatos finais que relatam uma tímida chegada aos Estados Unidos da América.

A narrativa do menino de dez anos expõe também a perda de sua infância, manchada sem piedade pelos atos de crueldade refletidos no cenário mundial. É impossível não se emocionar ao ver a clareza das cenas contadas. É perturbador, devasta a alma e muda o quadro de quaisquer pensamentos ou lições encontrados em artigos de jornais ou revistas, às vezes, tão superficiais. Seguindo uma linha semelhante a estória de ''O Menino de Pijama Listrado'', de John Boyne — estória que relata a infância de Bruno, menino de nove anos que não sabe nada sobre o Holocausto e a Solução Final contra os judeus —, ''O Menino da Lista de Schindler'' é tocante, real, marcante, profundo e intenso, tão quanto. O sofrimento vivido após a Segunda Guerra Mundial — que iniciava-se com a narrada invasão da Polônia por aquela Alemanha Nazista em 1939 gerando imediatas declarações de guerra pela França e parte do Reino Unido —, trazia a alguns povos, antes desses atos cruéis, em exemplo o Holocausto, a imagem de um mundo perfeito se comparado àquele terror.

''(...) Prezo as lembranças do pequeno mundo em que passei os primeiros anos da minha infância. Um mundo definido pelo amor e pelo carinho da família. O ritmo previsível da vida tornava os raros momentos de surpresa lembranças mais que especiais. Quando penso naquela maneira de viver, hoje tão distante, sinto saudades, sobretudo de meus avós, tios e primos.''

Nazismo: doutrina e partido do movimento Nacional-Socialista alemão fundado e liderado por Adolph Hitler; hitlerismo, Nacional-Socialismo.

Holocausto: Genocídio mais cruel do século XX, onde cerca de seis milhões de judeus foram assassinados durante a Segunda Guerra Mundial. O extermínio étnico foi consolidado pelo Estado nazista e liderado por Adolf Hitler. Mais de um milhão de crianças, dois milhões de mulheres e três milhões de homens judeus morreram nesse período.


Oskar Schindler foi um verdadeiro herói que se opôs ao movimento nazista de ideais racista.


A escrita da obra é muito simples, bonita e objetiva, muito chamativa para o público juvenil, que deve ter o livro como parte de seu acervo histórico. A leitura é envolvente, harmoniosa, flui de maneira gostosa, embora relate sem picuinhas fatos tão desumanos. Esse enredo histórico que inclui o nazismo e seu idealizador como parte central para o desenvolvimento das revelações de Leon, gera um contexto rico que motiva o interesse pela leitura. A descriminalização contra os judeus teve formas descontroladas. O domínio alemão sobre esse povo foi avassalador. Não posso esperar chegar ao término desta avaliação  para aclarar que o livro agora é um dos meus favoritos já lidos. Assim como digo também que, não há como fazer uma crítica da obra sem expor meus sentimentos pessoais sobre o conteúdo que li. É intenso demais, talvez até por ser contado através do ponto de vista de um menino que estava lá, do lado de dentro, que era parte envolvida e que apenas iniciava a vida vendo tantas outras chegando ao fim. Para aqueles que ainda continuavam vivos, restava então a dissipação da esperança, perda esta que que impressiona e entristece. O leitor se sente impotente e sabe que mesmo se estivesse lá, nada poderia fazer em prol daquela nação.

Senti-me vários momentos envergonhado por ser um ser humano e entender que pessoas como eu foram dizimadas por outras que se achavam superiores e que tinham Hitler — um verdadeiro Diabo da história mundial — como paradigma de raciocínios sinuosos. Senti-me enojado, arrepiado, enganado... rejeitado como um judeu, desamparado como Leon. Vi-me como parte desse mundo podre capaz de gerar criaturas grotescas, imundas e infamantes. Os vestígios que o nazismo deixava naqueles que sobreviviam, influenciavam diretamente no modo de agir, pensar e falar.

''Pouco a pouco, os garotos com quem eu dividira tantas aventuras, que nunca tinham ligado para o fato de eu ser judeu, começaram a me ignorar. Depois, passaram a murmurar palavras ofensivas quando eu estava por perto. Por fim, o mais cruel dos meus antigos amigos me disse que eles nunca mais seriam vistos brincando com um judeu.''

Os personagens envolvidos são marcantes. A família de Leon Leyson merece muito respeito e admiração por resistirem aos horrores do Nacional-Socialismo. Sofridos e marcados pelas práticas desumanas dos alemães, não desistiram da luta pela vida e pela dignidade, mesmo em meio às doenças que se alastravam pela precariedade de condições diárias os tornando pessoas cada vez mais debilitadas.

''O dogma nazista agrupava todos os judeus como se fossem uma coisa só: o odiado inimigo dos arianos. Para eles, ser judeu não tinha nada a ver com aquilo que acreditávamos, mas com nossa suposta raça. Para mim aquilo não fazia sentido.''

A necessidade de viver em um mundo terrível implantado pelos alemães naquela década, faz dos judeus um dos povos mais representativos, símbolo de sofrimento, injustiça e sorte — para aqueles que conseguiram escapar. Os campos de concentração cujo os judeus eram levados para a morte, tornaram-se ícones históricos do horror mundial.

''Ao entrar no caos de Plaszów, vi diante de mim um mundo muito pior do que jamais poderia ter imaginado (...) Atravessar aquele portão foi como chegar ao último círculo do inferno (...) Era estéril, triste, caótico. Eu era tão pequenino e magro, e meu cabelo estava tão comprido e desgrenhado, que eu podia ser confundido com uma menina.''

E vocês devem estar se perguntando até agora a respeito de quem era Schindler, não é mesmo? O aparecimento de Oskar Schindler na estória e na vida do garoto foi, na verdade, o início da salvação de Leon, sua família e uma parcela significativa de outros judeus. Empresário nazista que tratou os judeus com pontas de igualdade e respeito, resistindo e se opondo a ideologia racista. Arriscou-se por vezes enquanto contratava judeus para trabalharem em sua fábrica. Oskar Schindler ousava rebelar-se contra a norma de torturar e exterminar judeus. O herói, disfarçado de monstro, que salvaria a vida do pequeno Leon.

''Para os nazistas, eu era só mais um judeu; meu nome não importava. Mas Schindler era diferente. Ele obviamente queria saber quem éramos. Seus atos mostravam que se importava conosco. Alto, robusto, com uma voz retumbante, me perguntava como eu estava passando. Ele me olhava nos olhos, não com expressão vazia e cega dos nazistas. Eu era tão pequeno que tinha de ficar em cima de um caixote de madeira emborcado para alcançar os controles da máquina.''

Nos dias atuais, nos deparamos com pessoas em situações razoáveis ou até mesmo boas, que reclamam da vida e das dificuldades desdenhando o pouco que tem. Não entendem ao menos que no mundo muitas pessoas sofreram e sofrem coisas que sim, podem ser consideradas difíceis, em consequência de atos realmente cruéis. Óbvio que nenhum tipo de sofrimento é bom ou aceitável e nesse pensamento final não está na balança uma comparação entre tipos de sofrimento. Sofrimento é sempre sofrimento, em qualquer lugar ou para quaisquer tipos de vida. Mas, às vezes, é preciso que entendamos que, tantos por aí podem mudar seus quadros mas não o fazem. Podem caminhar livremente, fazer suas próprias escolhas, estar ao lado das pessoas que mais amam, e mesmo assim, preferem se degredar de suas melhores possibilidades. O mundo é cruel e não sabemos o dia que um novo estopim se acenderá. Para os sem esperança, acreditem, existem Schindlers por aí, que com bons corações, estarão dispostos a usar e praticar aquilo que nós, humanos, deveríamos usar em todos os momentos: amor ao próximo sem critérios raciais ou socioeconômicos e humanismo.

MAIO DE 1945: LIBERDADE — O nazismo chegou ao fim em 8 de maio de 1945, data considerada ''O Dia da Vitória'', pois o Império Nazista rendeu-se finalmente. Já se passaram 66 anos desde o momento histórico do fim da Segunda Guerra Mundial e do nazismo, porém para sempre perpetuará as cicatrizes de toda devastação causada pelo massacre nazista na Guerra e na população.

RECOMENDO a leitura do livro ''O Menino da Lista de Schindler'' para jovens e adultos que querem conhecer uma das verdades do mundo em que vivem. Uma história em que, efetivamente, o grande protagonista não é o pequeno Leon Leyson e sim, o grande herói que salvara mais de mil judeus da morte. Cinco estrelas pois é o limite das classificações, favoritado com certeza.


''QUEM SALVA UMA VIDA, SALVA O MUNDO INTEIRO.''


REFLEXÃO: ''Ouvi um tiro e logo depois outro. Senti uma bala passar zunindo ao lado da minha orelha; ela perfurou o muro atrás de mim. Soaram mais tiros. Será que algum tinha me acertado? Eu só sabia que estava aterrorizado [...] Do outro lado da cerca de arame farpado em volta do campo, eu conseguia enxergar os filhos dos oficiais alemães exibindo-se de um lado para o outro, usando seus uniformes da Juventude Hitlerista e entonando canções de louvores ao Führer Adolf Hitler. Eles, tão exuberantes, tão cheios de vida, e eu, a poucos metros de distância, exausto e deprimido, lutando para sobreviver por mais um dia.''



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